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domingo, 21 de julho de 2024

Artigos

O Amor não-correspondido

O barco da Igreja conheceu turbulências, ventos adversos e dias difíceis, ao longo de sua trajetória, ontem e hoje. E amanhã não será diferente.
No século 17, em que refulgiu a ternura mística de santa Margarida Maria de Alacoque, a Igreja atravessava mares encapelados.
Analfabetos na Escola da misericórdia, cristãos jansenistas carregavam nas tintas da miséria humana e no rigor divino, ensinando cidadãos vulneráveis, criaturas imperfeitas, pecadores inveterados… Cabia-nos ficar longe da Eucaristia, montanha alta demais para o comum dos mortais, reservada apenas a alguns pouquíssimos eleitos, privilegiados de Deus.
Antes de comungar, em todas as liturgias eucarísticas rezamos humildemente com o celebrante: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e minha alma será salva”.
Rígidos, puritanos, de coração estreito e mente pequena, amedrontados diante de um Deus severo e castigador, os jansenistas estacionavam na primeira parte da frase, sem prosseguir na prece. Na linguagem de hoje seriam considerados fundamentalistas. A parábola do Filho Pródigo e do Bom Pastor não constava em seus dicionários religiosos, espirituais. Esqueciam-se também da promessa imortal do Mestre: Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá eternamente”.
A França vivia uma época turbulenta, sacudida por crises no campo político, econômico, religioso, social. A crescente hostilidade à Igreja era vista na perspectiva de pecado, de ofensa a Deus. O jansenismo exorbitava essa dimensão, e os libertinos da época com sua teoria e prática confirmavam-na plenamente. O quadro geral era sombrio, desalentador: um século marcado e imerso no pecado, a França materialista, pagã, as massas se descristianizando a olhos vistos.
Nesse contexto, Margarida Maria é escolhida por Deus para revelar ao mundo a espiritualidade do Coração de Jesus, sob uma faceta nova, peculiar: o amor não-correspondido, que pede desagravo, reparação de todos os fiéis, à luz da misericórdia de Jesus Cristo, o redentor, enviado pelo Pai para salvar e não para condenar.

 

 

(Por: Pe. Roque Schneider.SJ – † 26/02/2023)

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