sexta-feira, 23 de outubro de 2020

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O amor chega primeiro

A célebre passagem dos homens contratados para trabalhar na vinda, relatada no capítulo vinte do Evangelho Segundo Mateus (Mt 20,1-16), concede-nos oportunidade ímpar para refletir acerca do tema proposto, tendo em vista impulsionar a mudança de mentalidade e, consequentemente, impulsionar mudanças concretas no agir de nossas vidas. O tema proposto é a lógica do Reino de Deus em contraposição á lógica puramente humana.
Jesus vale-se da parábola segundo a qual o proprietário contrata, em horas distintas do dia, trabalhadores para sua vinha. Ao final do expediente, a começar pelos que foram contratados por último, paga-lhes o combinado. A atitude do patrão gera revolta nos primeiros contratados que, seguindo a lógica do senso comum, reivindicaram receber mais. O patrão rememora-lhes o direito de fazer o que quiser com aquilo que lhe pertence e questiona: “Estais com ciúme porque estou sendo bom?”
Para melhor compreensão vale considerar a linha mestra do Evangelho Segundo Mateus: orientar a comunidade dos cristãos a sobre como viver a fé; consequentemente, ele aborda a adesão á lógica do Reino de Deus proposta por Jesus e Seu estilo de vida, em contraposição á lógica dos que não O têm como Senhor. Sempre foi, continua sendo e será difícil aos que se dispõem seguir Jesus, abandonar o jeito próprio do viver mundano, no qual prevalece a competição e a falsa justiça.
Pupula em nossos dias o conceito de meritocracia, segundo o qual, de maneira geral, o indivíduo é reconhecido em função daquilo que oferece; quanto mais apresenta resultados, mais é reconhecido. Quantas vezes advogamos em causa própria ou alheia, valendo-nos deste princípio: “Mas eu cheguei primeiro, mereço mais…”. “Este chegou por último, ele não merece …”. Assim tentamos, também, perverter a dinâmica do Reino de Deus, no qual prevalece o princípio da graça distributiva e não retributiva.
Antes que eu quisesse, pensasse, consentisse e aderisse á fé, Deus me amou primeiro. Quanto aos que não O aceitam, não O amam e dizem não crer, Ele os ama igualmente. A medida do Seu amor não é nossa capacidade de fazer coisas, nossos méritos; tudo o que possamos fazer é, no mínimo, um dever, reconhecendo o muito que, gratuitamente, Dele recebemos. Na lógica do Reino quem chega primeiro é Deus, Seu amor-maior. Se chegamos antes ou depois de um determinado critério e medida, como tempo e lugar, estes não deve pressuposto como medida do amor de Deus. Quiçá aprendamos esta nobre lição!

Ivanaldo Mendonça
Padre, Pós-graduado
em Psicologia
[email protected]

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