Ir para o conteúdo

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Artigos

O Alforje

Nascemos livres, leves e soltos; o vento nos leva como plumas pela vida. Somos capazes e alçar voos por nossa inesgotável imaginação a todo momento, sem nos cansar.
Quando o mundo decide que já estamos crescidos o bastante, recebemos um alforje bem espaçoso que devemos dar um jeito de adaptar na nossa frágil coluna ainda em formação. O apetrecho mesmo vazio, passa a incomodar e atrapalhar o desempenho de nossos voos, mas ainda somos capazes de fazê-los.
Por falta de malícia e experiência, nem percebemos outras pessoas tirarem o peso de suas costas e colocarem na nossa. O cansaço vai nos dominando; perdemos aos poucos a vontade de sair do chão, porém nos induzem a pensar que isso faz parte do ciclo da vida, pois crescer é assim mesmo.
O tempo vai passando, o alforje aumentando e até caminhar se torna difícil. Às vezes nos questionamos sobre os pesos carregados, não conseguimos lembrar de tê-los adquirido, mas o mundo nos convence de que realmente é todo nosso, temos que dar um jeito de seguir em frente.
Com esse pensamento de termos que conseguir seguir em frente, muitas vezes conseguimos, mesmo que para isso utilizemos todas nossas energias. Por estarmos fracos e vulneráveis, somos alvos fáceis, e muitos que passam por nós aproveitam para tirar pesos de seus alforjes e colocarem no nosso. É uma batalha injusta…
O vento que outrora nos levava por veredas e nuvens coloridas, agora já não é capaz nem de refrescar nosso pesado corpo que se arrasta pedindo socorro em vão. Algumas almas impiedosas ainda são capazes de colocar um pouco mais de bagagem em nosso dorso, que carrega uma carcaça moribunda.
Nos resta esperar pelo fim ou reagir e lutar pela retomada de nossa vida, que foi destruída por uma carga que não nos cabe. Depois de tanto tempo, não conseguiremos tirar o alforje de uma só vez de nossos ombros, precisaremos realizar a ação lentamente, dia a dia.
O processo será doloroso, irá nos deixar sequelas e cicatrizes. Após esse longo combate, a leveza enfim voltará a fazer parte de nossa vida; pode ser que nunca voltemos a alçar voos tão altos como antes, mas ganharemos a sabedoria de jamais tornar a carregar em nosso alforje o que não nos pertence.

 

 

 

 

Erika Borges, cronista e
escritora,autora dos livros
Crônicas e Reflexões da Vida
e Crônicas e Reflexões na Pandemia
e Mediadora de Biblioterapia

Compartilhe: