Ir para o conteúdo

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Artigos

O Águia de Haia

Caros leitores,
Hoje, 1º de março, é celebrado o centenário de falecimento do ilustre Ruy Barbosa, cognominado de ‘Águia de Haia’, devido a sua participação brilhante, e, alcança fama mundial, em 1907, ao representar o Brasil na 2ª Conferência de Paz, em Haia, Holanda.
Intensa foi sua trajetória em relevantes serviços à nação brasileira, um ponto de luz, baluarte dos valores morais. Foi advogado; tribuno, jornalista; político; abolicionista; e republicano de última hora, como ele mesmo dizia, ao aderir, no dia 11 de novembro de 1889, à conspiração republicana. No entanto, a sua notoriedade veio pela sua fama de grande orador.
Ruy, nasceu a 5 de novembro de 1849, em Salvador, BA, filho do médico, João José e Maria Adélia Barbosa de Oliveira. Em 1854, inicia-se seus estudos; em 1861, ingressa no Ginásio Baiano; em 1866, matricula-se na Faculdade de Direito do Recife e, 1868, transfere-se para Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, formando-se em 1870. Porém, volta doente para sua cidade natal.
Esse jovem de 1,58 de altura, tinha o dom da palavra, principalmente, nas manifestações políticas, pois no dia 13 de agosto de 1868, aos 18 anos, profere seu primeiro discurso, ao saudar José Bonifácio, o Moço, poeta, jurista, professor e político, sobrinho e neto de José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca da Independência.
Na imprensa, circulou por vários jornais, muitos como redator-chefe: Diário da Bahia, órgão do Partido Liberal; Diário de Notícias; e Jornal do Brasil. Na maioria das vezes na oposição ao governo, criticava-o, quer seja, imperial ou republicano, inclusive inicia uma violenta pregação a favor do regime federativo e a campanha pela abolição da escravatura. Todavia, após a Proclamação da República, assumiu, a convite do Marechal Deodoro, o Ministério da Fazenda e a vice-presidência do governo provisório, porém, suas medidas econômicas provocaram o ‘encilhamento’, ou seja, o Brasil passava por graves desajustes econômicos, que causavam a falta de dinheiro circulante. Para resolver o problema, Ruy propôs um incentivo à emissão de papel moeda, pagar os trabalhadores assalariados, cujo aumento era considerável, com fim da escravidão e a imigração e, ainda impulsionar a industrialização brasileira.
Como político, foi candidato diversas vezes à presidência da República, no entanto, acumulou várias derrotas nos pleitos eleitorais, contra Hermes da Fonseca e Epitácio Pessoa. Também participou, em 1905, da campanha vencedora de Afonso Pena, bem como retira, em 1913, sua candidatura a favor de Venceslau Brás. Ao passo que fora eleito, como legislador, para a Assembleia baiana, depois para o Parlamento na Corte e senador da República, neste caso reeleito para diversos mandatos. Em sua vida parlamentar foi atuante, apresentando, ainda no Império, a reforma eleitoral e Lei do Sexagenário, aprovada pelos seus pares; porém fora derrotado, com o projeto de reforma do ensino; em 1892, defende no Supremo Tribunal os militares banidos por Floriano Peixoto; em 1893, acusado de liderar a Revolta da Armada, é exilado, mas retorna dois anos após e elege-se senador.
Para finalizar, cito trecho do discurso ‘Oração aos moços’, proferido na Faculdade de Direito de São Paulo, como paraninfo dos bacharelandos de 1920, num Brasil de cerca de 30 milhões de habitantes “[…] Agora, o que a política e a honra nos indicam é outra coisa. Não busquemos o caminho de volta à situação colonial. Guardemo-nos das proteções internacionais. Acautelemo-nos das invasões econômicas. Vigiemo-nos das potências absorventes e das raças expansionista. Não nos temamos tantos dos grandes impérios já saciados, quanto dos ansiosos por fazerem tais às custas de povos indefesos e mal governados. Tenhamos sentidos nos ventos, que sopram de certos quadrantes do céu. O Brasil é a mais cobiçável das presas; e, oferecida, como está, incauta, ingênua, inerme, a todas as ambições, tem, de sobejo, com que fartar duas ou três das mais formidáveis. […] Um povo dependente no seu próprio território e nele mesmo sujeito ao domínio de senhores não pode almejar seriamente, nem seriamente manter sua independência com o estrangeiro. Eia, senhores! Mocidade viril! Inteligência brasileira! Nobre nação explorada! Brasil de ontem e amanhã! Dai-nos o de hoje, que nos falta”.
(Dados biográficos “Grandes Personagens da nossa história”, Abril Cultural; Oração aos moços, Literatura Luso-brasileira, Volume 3, Dicopel.pp. 253-254).

 

 

 

 

José Antonio Merenda
Escritor, historiador e membro
da ABC – Academia Barretense
de Cultura – Cadeira nº 29

Compartilhe: