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quinta-feira, 24 de junho de 2021

Artigos

O Abre Alas!

Caro leitor,
“Ô Abre Alas/ Que eu quero passar/ Eu sou da Lira não posso negar/ Rosa de Ouro é que vai ganhar”, composição de Chiquinha Gonzaga, para o carnaval carioca de 1899, encomendada pelo cordão carnavalesco ’Rosa de Ouro’, possivelmente, a primeira música composta especialmente para o carnaval. As marchinhas ficaram populares entre os anos 1920 e 1950 e se tornaram um símbolo do carnaval brasileiro, possuidoras de melodias simples, ritmo acelerado, letras cheias de duplo sentido, sendo um importante retrato de diferentes situações do cotidiano, crítica social e política do ano.
Apesar de seu declínio a partir dos anos 1960, com a ascensão dos sambas-enredo das escolas de samba, seu prestígio permanece vivo até hoje, pois embalaram os carnavais de diversas gerações de foliões. Tenho certeza que você não se esquece dessas lindas marchinhas: Jardineira; Bandeira Branca; As Pastorinhas; Mamãe Eu Quero; Me Dá um dinheiro aí; Cabeleira do Zezé, A Turma do Funil; Cidade Maravilhosa; Acorda, Maria Bonita; Máscara Negra; A Canoa virou; Chiquita Bacana; Cachaça não é água; Marcha da Cueca; Coração Corinthiano; Touradas de Madri e tantas outras que estão vivas na memória de todos. Oh! Que saudade! Máscaras, fantasias, desfiles alegóricos, carnaval de salão e o humor que marcavam os festejos de momo.
De origem controversa, mas de tradição milenar, o carnaval, da antiguidade até os dias atuais, sofreu influências culturais e de formatos. No Brasil, segundo a Enciclopédia Barsa, apenas em três ocasiões houve tentativas de mudanças no calendário tradicional do carnaval, realizado anualmente em fevereiro, porém frustradas, como aconteceu em 1890, com base no dispositivo do Código de Posturas Municipais do Rio de Janeiro, para evitar os “malefícios do verão escaldante”, houve tentativa de transferir os festejos de momo para o último domingo de junho e segunda e terça-feira subsequentes; em 1912, em virtude do luto nacional pela morte do barão do Rio Branco, ocorrida a 10 de fevereiro; e durante a I Guerra Mundial (1914-1918). Atualmente, por força da pandemia da COVID – 19, o carnaval de 2021 foi cancelado, porém, há expectava de realizá-lo em data em meados do ano ou cancelá-lo definitivamente.
Em Barretos, o carnaval sempre teve seu prestígio junto aos barretenses, quer seja nos salões, como foliões, em quatro noites e em duas matinês, ou ao assistir aos desfiles dos blocos, cordões e escolas de samba, como: o bloco ‘Carvão Nacional’, precursor da Escola de Samba ‘Estrela do Oriente’; União, Grêmio; Jockey Club, Rio das Pedras, Unidos de Vila Marília, Imperadores do Samba, além do bloco de humor escrachado ‘As Moderninhas’, dirigido por Zé Toledo, que nos anos 1970, fez história, sendo esperado ansiosamente pelo público. O bloco era constituído, principalmente, de homens travestidos de mulheres, muitos usavam os vestidos da mãe, avó, irmã, namorada, além do famoso caixão funerário, preto-velho ou pai-de-santo e várias sátiras.
Entre os anos de 1975 e 1979, tive o privilégio de participar desse famoso e inesquecível bloco carnavalesco, desfilando com as personagens, entre outras: Isolda, bailarina Catarina Sapatova e As Frenéticas. O desfile de momo percorria a avenida 19, naquele tempo não havia o calçadão e a Praça Francisco Barreto era cortada pela avenida, onde armava-se o palanque, em frente à Catedral. Após o desfile, em bloco, visitava todos os clubes, que não eram poucos, que promoviam a festa momesca: Grêmio, União, Jockey, Rio das Pedras, Estrela D’Oriente, Clube da Vila Marília, Clube do Bom Jesus, Clube do Frigorífico, Cravos Vermelhos, todos com os salões lotados.
Com o passar do tempo foram diminuindo os tradicionais desfiles e bailes de carnaval. Porém, há alguns anos surgiu na cidade o cordão ‘Espalha Samba’, sob o comando do jornalista e carnavalesco Patrício Augusto. Uma boa iniciativa para reviver os velhos carnavais e as eternas marchinhas, percorrendo ruas e avenidas de nossa cidade.

José Antonio Merenda
Historiador e presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura

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