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segunda-feira, 04 de março de 2024

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Nossa Senhora Virgem e Mãe

Como é possível que Maria seja verdadeiramente mãe e ao mesmo tempo virgem? Estamos tão acostumados a dizer que Maria é Virgem e Mãe que corremos o risco de não cair na conta da maravilhosa obra que Deus operou nela tendo em vista a nossa salvação.
Dizer que ‘Maria é verdadeiramente mãe de Deus‘ é uma afirmação cristológica, ou seja, significa reconhecer que a maternidade divina de Maria tem por finalidade confessar a verdade da encarnação do Verbo. Não reconhecer a maternidade divina de Maria implica, portanto, rejeitar a verdade da encarnação e negar que Deus possa se tornar homem em senso verdadeiro e real. Confessar a maternidade divina é, ao contrário, afirmar que um homem possa ser assumido na unidade pessoal do Verbo de Deus.
‘Aquele que ela concebeu Espírito Santo como homem e que se tornou verdadeiramente seu Filho segundo a carne não é outro que o Filho eterno do Pai, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade‘ (CatIgCat 495).
Maria não se tornou mãe apenas de um homem, mas do Filho de Deus que realmente se fez homem. A verdade da maternidade divina de Maria sublinha que Cristo é Filho de Deus e ao mesmo tempo verdadeiro homem. Sublinha também que Ele, como filho de uma mãe humana, continua a existir na unidade divino-humana, isto é, que é e permanece Homem-Deus.
A maternidade divina está ligada estreitamente à virgindade de Maria: ‘Desde as primeiras formulações da fé, a Igreja confessou que Jesus foi concebido exclusivamente pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, afirmando também o aspecto corporal deste evento: Jesus foi concebido ’do Espírito Santo, sem sêmen’. Os Padres veem na conceição virginal o sinal de que foi verdadeiramente o Filho de Deus que veio numa humanidade como a nossa‘ (CatIgCat 496).
A maternidade virginal de Maria tem um inegável caráter espiritual. A dedicação total e a sua fé perfeita em Deus constituem, de fato, o núcleo mais íntimo da sua virgindade. É exatamente essa convicção que fez Santo Agostinho escrever: ‘Maria é bem-aventurada mais por ter acolhido a fé em Cristo do que por ter concebido a sua carne‘ (De sacra virginitate 3,3).
Contudo o aspecto espiritual não diminui a dimensão corporal da maternidade virginal. Com efeito, a salvação diz respeito ao todo do ser humano: espírito, alma e corpo. A Igreja e a tradição patrística nunca reduziram a virgindade de Maria unicamente ao seu aspecto espiritual, mesmo que sempre tenha reconhecido a importância do seu sentido espiritual.
Além de respeitar e salvaguardar a unidade de corpo e alma, a concepção virginal de Maria revela e exige o momento criativo divino. A criação da nova humanidade em Cristo é uma ação exclusiva de Deus. Ela ‘vem do alto‘ sem a intervenção do ser humano. A maternidade virginal é, portanto, um evento que depende da iniciativa soberana de Deus, de tal forma que ‘o nascido da Virgem‘ é única e diretamente realizado por Deus, pela liberdade e pelo imediatismo do mistério de sua ação soberana (aspecto corporal), que suscita e exige a aceitação livre e a disponibilidade responsável de Maria que não conhece outro parceiro nem outro destinatário de sua dedicação que não seja Deus (aspecto espiritual). Em outras palavras: a virgindade corporal de Maria é o sinal psicofísico da sua dedicação a Deus.
O mistério da virgindade de Maria ilumina o próprio mistério da nossa salvação. Da parte de Deus, a nova criação depende de sua soberana iniciativa, mas a soberania divina não se substitui à liberdade humana, antes a suscita, a sustenta e a coroa. Assim a plena soberania de Deus na salvação pressupõe uma receptividade obediente. Maria, Mãe e Virgem, é o cume e a síntese tanto da receptividade humana, da mediação eclesial da salvação quanto da gratuidade da ação de Deus.

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