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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Artigos

No tempo dos gibis

Nos anos sessenta, os alunos das escolas públicas eram incentivados a participar das campanhas de desarmamento infantil. O termo, nos dias atuais, poderia ser entendido como uma aberração, porque insinua que os nossos estudantes andavam armados. Na verdade o desarmamento era a entrega de brinquedos considerados ofensivos, tais como pequenas espadas, estilingues, revólveres de brinquedos e os velhos gibis.
Os alunos entregavam os brinquedos e gibis, e em troca recebiam livros didáticos. Para quem desconhece o termo, gibis eram revistas em quadrinhos, onde os heróis predominavam, tanto no manuseio da espada, como no poder dos punhos, e muitas vezes no duelo com os pistoleiros. Eram esses heróis os tais “mocinhos” que, segundo as estórias, sacavam mais rápido, tinham a melhor pontaria e, no final, se casavam com a “mocinha”.
Já sei que muitos vão apontar o nosso lado piegas, mas, indiferentes a isso, vamos fazer as nossas costumeiras comparações. Muitos dos educadores daquele tempo ou desconheciam, ou queriam ignorar a importância da leitura dos gibis, fossem eles de bandidos ou de mocinhos. Quantos de nós, adultos e idosos de hoje, não iniciamos a nossa vida de leitura usando os gibis?
Outro ato condenável era a prática de se colecionar figurinhas. No intervalo das aulas, ou no recreio, eram comuns as rodinhas de estudantes apostando, jogando bafo. As figurinhas eram amontoadas e, cada um por sua vez, batia com a mão em formado de concha. As figurinhas que virassem eram entregues ao vencedor.
Estamos falando isso para voltarmos ao tempo em que dizia-se que tomar leite com manga era morte certa; quando a leitura dos gibis era condenada, quando as famílias se reuniam nas calçadas para conversar, quando as crianças viviam soltas na rua, sem a preocupação de hoje. Um tempo distante das grades que segregam as famílias, que prendem as crianças em casa e fazem delas reféns dos computadores, do Ipad, do mundo virtual.
Assim, quando vejo um grande jornal de nosso Estado oferecendo um álbum para que os leitores colecionem figurinhas, fico imaginando o quanto mudamos, o quanto a sociedade se acomodou, e o quanto éramos felizes e não sabíamos. A leitura proibida era algo ingênuo, comparado ao que temos hoje. Os filmes proibidos para menores eram pequenas amostras do que a televisão nos apresenta, no tal horário nobre.
Horário nobre. Nobre para quem? Para uma sociedade nada nobre, que esconde a sua frustração aceitando o espetáculo de qualidade duvidosa, torcendo para que o herói deixe de ser atingido pelo vilão? Nobre para uma população que aceita e se conforma com as perdas, que se consola com a linguagem chula de música descartável, com a falta de conteúdo? Nobre por incentivar a população a se afastar da leitura, por aceitar e absorver a pulverização da alienação, por aspergir a solidão?
Pieguices à parte, somos obrigados a fazer comparações e aceitar a nossa condição de ultrapassados. Ultrapassados, porém não comprometidos, e acima de tudo, inconformados. Afinal, sobram motivos, e a cada dia que passa aumenta a convicção de que em tempo algum a nossa inteligência foi tão aviltada.
 
Vitor Sapienza é economista e agente fiscal de rendas aposentado. 

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