Ir para o conteúdo

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Artigos

Nem Maria, nem Madalena: mulheres são pessoas

Biblicamente foram atribuídos dois papeis às mulheres: santa ou prostituta. Esses papeis continuam reproduzidos na atualidade para classificar as mulheres entre as que são “pra casar” e as que são pra “uma noite”. Nenhuma novidade até aqui. A grande questão é como essa classificação arcaica e patriarcal afeta os direitos das mulheres, ainda tão juvenis e frágeis na história da humanidade.

Quando um homem é vítima de um crime, os questionamentos de praxe são: “por quê? como? quando? onde?”. Quando uma mulher é vítima de um crime, os questionamentos de praxe são: “o que ela estava fazendo ali? mas também, deu motivo! O que custava ela ter feito o que ele havia pedido? que roupa ela estava?” E então os importantes questionamentos do “por quê? como? quando? onde?” ficam encobertos por uma neblina de machismo preconceito, relativismo e culpabilização da vítima.

O cotidiano da DDM nos demonstra que qualquer motivo é considerado razoável pelo homem para corrigir sua companheira como se ela fosse adestrável e ele senhor da razão para determinar o que ela deve fazer ou não, dentro e fora de casa, dentro e fora do quarto.

A sexualidade é outro ponto de julgamento, em que seu exercício livre e de acordo com seu desejo, a libido da mulher é censurada e seu caráter por completo questionado com base em seu comportamento sexual. Há relação entre sexualidade da mulher e sua capacidade e competência laboral? A razão nos diz que não, mas os costumes demonstram o contrário. Se não há comportamento sexual a ser recriminado, xingamentos dessa natureza são usados para ofendê-la, pois, vamos lembrar, “vadio” e “vadia” tem significados totalmente diferentes.

Isso tudo acima escrito tem um nome: “objetificação”. A mulher é vista como um objeto de desejo, de serviço, de idealização, mas não como uma pessoa, ou como o Direito tanto diz, como o “homem médio”, como um ser livre, neutro.

O recente dia das mulheres revela que o imaginário social, inclusive de muitas mulheres, ainda pensa que elas devem ser tratadas como rainhas (aquelas que merecem, é claro!), “comemorando” a data com flores e chocolates, sem perceber o perigo que é colocar uma mulher em um pedestal: no pedestal estão os santos, figuras inanimadas, a receber os pedidos das orações; as mulheres “santas” são aquelas que recebem os pedidos da família toda (ou do trabalho) e os atende sem pestanejar, pois seu dever é servir, ainda que a custo de sua saúde física e mental. Aquelas que não servem, essas não servem “pra nada”, essas são “vadias”, ainda que pudicas, quando, na verdade, são insubmissas, subversivas, revolucionárias.

Só teremos uma sociedade igualitária e um sistema de justiça efetivamente justo quando olharmos para as mulheres como pessoas, quando nem passar por nossas mentes fazer perguntas diversas para vítimas masculinas e femininas sobre as circunstâncias do crime ou sobre qualquer desavença cotidiana. Para isso, primeiro precisamos abolir os dois extremos do pedestal.

Dra. Denise Polizelli, delegada da Delegacia de Defesa da Mulher de Barretos

Compartilhe: