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segunda-feira, 24 de junho de 2024

Artigos

Natal da maturidade

Num dia fui criança. O Natal era perfeito. Comidas especiais, presentes, música na nossa casa. Eu amava tudo: férias, casa cheia e o cheiro dos biscoitos natalinos assados em forma de pinheiros, estrelas e Papai Noel. A última semana do ano era maravilhosa.
Na juventude, aumentou minha vida religiosa. O Natal passou a ser uma manifestação do Verbo Encarnado, a chegada do Rei da Paz e o mistério do Deus Menino na manjedoura. Cantava “Noite Feliz” e “Adeste Fideles” (Cristãos, Vinde Todos) com devoção. Escrevi peças teatrais natalinas e atuei nelas. Os reis sábios do Oriente e os pastores traziam o coro angelical de “glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”.
Anos correram… e a vida de adulto me afastou de muita coisa. Passei Natais no exterior muitas vezes, aproveitando o hiato de aulas, no fim de ano, para viajar. Busquei bons restaurantes e concertos natalinos. A fé tinha saído do horizonte, todavia a intensidade do “Magnificat”, de Bach, ou do “Glória”, de Vivaldi, continuava sendo uma fonte de emoção. Aliás, experimente ouvir essas duas músicas, degustando um bom chá ou, se for adequado, vinho. Ajuda muito no fim do ano tocar de forma pura na beleza.
O novo século 21 veio acompanhado do declínio da saúde dos meus pais. Passamos a nos concentrar no endereço original dos Karnais. Sempre nos rondava o espectro de “este pode ser o último”. Deixei de viajar por mais de uma década para estar com eles. Em 2009, celebramos as bodas de ouro deles (casaram-se em 26 de dezembro de 1959). Era o “Natal Dourado”, como batizei. De fato, foi o último do meu pai. Em 2010, minha mãe estava viúva; nós, órfãos.
Os anos seguintes foram de foco total na minha mãe. O primeiro Natal sem meu pai foi difícil. O segundo foi uma reação da vida e da vontade de continuar. As festas foram se tornando mais fortes; nós, os filhos, nos encarregávamos de tudo. Como tanta gente aprendeu, a perda de um dos pais aumenta a consciência de que a vida passa e de que nada será assim “para sempre”.
No ano em que minha mãe completou 80 anos, comemoramos em um lugar onde ela tinha sido feliz, no passado: o hotel Llao Llao de Bariloche, Argentina. A festa familiar foi perfeita, em julho de 2017. Ela já estava mal, mas a neve cobrira a paisagem e, por um instante, acreditamos na eternidade do afeto. A foto dela, olhando a janela e o lago à frente do quarto, já era uma despedida. O horizonte já avançava. De fato, ela saiu do mundo em novembro daquele ano. O Natal de 2017 foi um jantar dos irmãos unidos e com lágrimas. O luto sempre piora no fim de cada ano.
A vida teima em avançar. A dor é uma rocha dura que o tempo desgasta, aplaina e diminui. Ela permanece lá, sim, mas toma outras formas. Há anos, todos os dias, em alguma tarefa ou devaneio, penso nos meus pais. As fotos deles me falam de amor e do tempo. Os mortos proclamam a ideia profética “és o que fomos, serás o que somos”.
O Natal veio de novo. Estamos todos bem. A indesejada foi passear em outras paragens. Sabemos que, num dia, ela volta. Os Natais voltaram a ter certo brilho. A vida segue com as inevitáveis mudanças no elenco. Saem os patriarcas, surgem namoradas e namorados dos netos. São pessoas alegres para quem aquela foto de uma senhora, olhando o lago em Bariloche, nada significa. Elogiam o vestido e as pérolas na mesma frase que indica a beleza do pinheiro de Natal. Tudo é decoração; fotos viram um signo esvaziado da memória biográfica.
E a fila anda… Perdi cabelos, fé, meus pais e outras coisas. A pergunta que fica em mim, em muitas leitoras e em muitos leitores é se o que adquirimos compensa o que perdemos. Afinal, o que ganhamos com tantos Natais se a memória faz brilhar no passado, empalidecendo o momento atual? Seria a memória dos Natais da infância uma construção melancólica do adulto?
Só posso responder por mim, mas cada dileta leitora e preclaro leitor vão dar sua própria explicação. O primeiro benefício da idade é a perspectiva. Tive Natais plenos de alegria e outros tristes por luto recente. A idade ensina que as coisas mudam com o tempo. Uma dor afetiva, por um namoro rompido na adolescência, é o fim do mundo. Hoje? Todo rompimento é o fim de um mundo e recomeço de outro. Choramos em todas as idades, mas pessoas maduras sabem que lágrimas secam, chegam sorrisos, e os olhos marejam de novo na próxima curva. Este Natal foi muito bom na nossa família. Outros nem tanto…
Outro tesouro da idade é o rosário de memórias. Tenho fotos, gravações, lembranças e frases que ecoam de muita coisa vivida no meu cérebro. Sou uma biblioteca de mim mesmo. Talvez por isso tenha encanto em ficar, de quando em vez, sozinho. A solitude é a solidão bem macerada e aproveitada. A prática da solitude é um exercício aprimorado com o tempo. Um sábado à noite em casa, aos 18 anos, é diferente de um sábado à noite com quase 60. Ler, ver um bom filme, pensar nas coisas vividas e percorrer fotos podem ser, com o tempo, um programa muito bom.
Hoje, meus Natais possuem uma pequena multidão de memórias e de ecos. Há uma linha que divide os presentes entre visíveis e invisíveis. Eu a atravessarei daqui a algum tempo. Espero fazer parte de todos os Natais futuros.
Ah, o cheiro da mesa do Natal e as músicas… Viva a vida que foi, que é e que sempre será. Viva a esperança natalina. Feliz Natal!

 

 

 

Leandro Karnal é historiador,
escritor, membro da Academia
Paulista de Letras, autor de
“A Coragem da Esperança”,
entre outros

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