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quarta-feira, 23 de junho de 2021

Artigos

Naquela mesa ele contava histórias . . .

Caro leitor,
O dia 1º de junho amanheceu triste com a notícia do falecimento de nosso confrade José Vicente Dias Leme, aos 89 anos, ou melhor, 11 para 100, como ele gostava de se referir à sua idade. Quis o destino, justo no dia em que completaria 70 anos de rádio, sua paixão, que Deus o chamasse. Ele iniciou sua carreira, aos 19 anos, no dia 1º de junho de 1951, como locutor na PRJ – 8 – S.A. Rádio Barretos, tornando-se ao longo dos anos, um ilustre personagem de nossa cidade, radialista, jornalista, escritor, poeta e compositor, com altas virtudes e uma vida dedicada à família e à radiofonia. Seu passamento nos enternece, causa uma lacuna e empobrece a cultura barretense.
Sentado à mesa de reunião da ABC, sempre atento aos assuntos da pauta e na “Hora do Acadêmico”, instantes finais do encontro reservados para um bate-papo entre amigos, Zé Vicente contava-nos, com voz firme e pausada, suas memoráveis histórias, que não eram poucas, como o caso Alexandre Castex, um uruguaio que comandava um programa na Rádio Barretos, de cunho social, em dezembro de 1963, com o slogan ‘Vista um pobre com seu voto’, no entanto, deu ‘tombo’ na cidade toda e, ele o imitava com o sotaque carregado no ‘portunhol’ e todos riam; o prêmio da loteria, que sua mãe ganhou, tirou-o do sufoco financeiro; de quando em quando nos ‘presenteava’ com dinheiro, ou seja, cédulas fora de circulação que ele colecionava.
Cultuava com fervor o vernáculo e não admitia o uso excessivo de ‘Né’, nos finais das frases, ao anotar a quantidade do vício nas falas de repórteres, palestrantes e até padres em suas homilias.
Era apaixonado pelo Rádio e seus personagens, contava-nos as histórias da Rádio Nacional e Mayrink Veiga, no RJ, em tempos pioneiros, as ondas do rádio como instrumento de integração nacional na Era Vargas, com seus ídolos, mitos, ouvintes cativos, programas de auditório. A beleza da música e seus astros e estrelas. O acervo fonográfico raro de Zé Vicente contém mais de 5.000 discos, entre 78 rpm e LP’s. Enfim, dotado de sensibilidade aguçada era exímio conhecedor dos grandes sucessos da época áurea da MPB, fã incondicional das estrelas Linda e Dircinha Batista, Dalva de Oliveira, Carmem Miranda, Emilinha Borba, Ângela Maria e dos astros Chico Alves, Orlando Silva, Cauby, Noel Rosa e, ainda, Sílvio Caldas e Anísio Silva, ambos moraram em Barretos antes da fama e de nossos conterrâneos Bezerrinha e Alciony Menegaz; a eterna rivalidade histórica, levada a sério pelos fãs clubes de Emilinha Borba e Marlene, concorrentes ao título de ‘Rainha do Rádio’; e o ‘speaker’, como era chamado o locutor naquela época, César Ladeira, e por aí ia, além de cantar as marchinhas de carnavais de outrora. Às vezes, expunha sua decepção com os rumos que tomara a música brasileira; também declamava suas quadrinhas hilariantes e cheias de trocadilhos; cantava os seus ‘jingles’ das campanhas eleitorais municipais, que compôs entre as décadas de 1950/1980, enaltecendo os candidatos, entre outros: Christiano Carvalho, Nagibinho, Ruy Menezes, Hércules Brazolin,
José Vicente Dias Leme, o nosso artista do microfone, nasceu em Barretos a 26 de outubro de 1931, filho de Cilineo Dias Leme e Augusta de Rezende Dias Leme. Era casado com Maria Luiza, há quase 63 anos, nascendo desse matrimônio os filhos: Inácio, Claudia, Raquel e Carmelita.
Ilustre confrade na ABC – Academia Barretense de Cultura, tendo ingressado na mesma em 29 de outubro de 1988, titular da Cadeira nº 31, cujo patrono é seu tio, o jornalista, escritor e poeta José Dias Leme. Era um dos mais assíduos membros, comumente participante das atividades culturais de nossa entidade, onde defendia e reconhecia o compromisso da ABC e seus membros para com a comunidade. Agora será incluído no rol dos Acadêmicos ‘In memoriam’.
Eis o porquê da nossa admiração e respeito por ele.
Descanse em paz, Zé Vicente! Aleluia!

José Antonio Merenda
Amigo e membro da ABC – Cadeira nº 29.

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