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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Artigos

Mulher morre de tanto trabalhar: o que mudou nas relações de trabalho desde a revolução industrial?

A morte da redatora Mita Diran, da agência de publicidade Young & Rubicam, após cumprir uma insana jornada de três dias ininterruptos de trabalho aliado ao abuso no consumo de energético, nos remete aos séculos XVIII e XIX, quando camponeses tiveram de abandonar sua vida pacata das pequenas cidades medievais onde exerciam e controlavam o ritmo de seu trabalho artesanal nas chamadas corporações de ofício, face à concorrência desleal da máquina a vapor e dos teares – pilares da revolução industrial. 
Sem armas para competir com a escala de produção e os baixos preços, viram-se obrigados a mudar para as grandes cidades que começavam a se formar. A população de Londres, como exemplo, passou de 800 mil habitantes em 1780 para mais de 5 milhões em 1880. Lá chegando eram forçados a vender sua mão de obra aos burgueses proprietários das fábricas, submetidos a condições de trabalho insalubres, fossem homens, mulheres e até crianças em jornadas semanais que chegavam a atingir 80 horas semanais. 
Apesar dos movimentos Ludista e Cartista que lutavam pelo fim da exploração infantil, regulamentação do trabalho feminino e folga semanal, pouco se avançou nas relações trabalhistas, gerando o que conhecemos como sistema de produção em massa no início do século XX. Teóricos como o americano Taylor e o francês Fayol, e empresários como Henry Ford e seu modelo T, serviram de inspiração para Charles Chaplin criar o filme Tempos Modernos.
A película mostra de maneira caricata a alienação dos funcionários, forçados a cumprirem longas jornadas de trabalho, ditadas pela velocidade da linha de produção e pelos ferozes capatazes da época. Obrigados a seguirem o ritmo em movimentos repetitivos, não raro desenvolviam problemas psicológicos e tiques nervosos tais como o observado por Chaplin ao deixar seu posto de trabalho, caminhando como se ainda apertasse parafusos. O foco estava no aumento da produtividade, que crescia a taxas nunca vistas. 
Em meados dos anos 30 começa a surgir uma luz no fim do túnel para os trabalhadores, através da experiência de Hawthorne, patrocinada pelo Conselho Nacional de Pesquisas dos Estados Unidos em uma fábrica da empresa Western Eletric Company. Conduzida pelo pesquisador Elton Mayo, tinha como objetivo verificar a influencia da iluminação sobre a produtividade dos empregados. Para conduzi-la, um grupo de trabalhadoras foi separada e utilizada como grupo de controle.
Foram oferecidas a este grupo diversas vantagens além da iluminação, tais como pausas para o lanche, folgas semanais e horários reduzidos de trabalho, sempre comparando com a produtividade, a qual obviamente subia cada vez que se introduziam mais benefícios. Curiosamente ao se retirar todas as vantagens concedidas a produtividade subiu como nunca, intrigando os pesquisadores que aguardavam reação contrária. 
Descobriu-se através de entrevistas em profundidade, que o principal fator para o aumento da eficiência estava na formação dos grupos informais. Com maior liberdade e menor pressão, as trabalhadoras criaram vínculos de relacionamento que antes não eram possíveis em face da aridez das condições de trabalho. Unidas, felizes e com um melhor ambiente de trabalho, demonstraram pela primeira vez a importância no cuidado com as pessoas, o que hoje parece algo óbvio e desejável às empresas que procuram reter os melhores talentos.
Colocado este pano de fundo, voltemos ao caso da redatora. Cresci vendo meu pai chegando muito cedo ao escritório, literalmente acendendo e apagando as luzes durante mais de 30 anos na mesma empresa. Pertencente à geração silenciosa, tinha como características o trabalho árduo, a paciência, o conformismo e o respeito, sobrepondo o dever ao prazer. Creio seja por isso se orgulhava de nunca tirar férias. Nascido no final dos anos 60, portanto membro da geração x, sempre fui mais cético, informal e avesso a hierarquia, promoções por tempo de serviço e horários pré-determinados. 
Face as diferentes gerações, nossos conflitos eram sempre pontuados por diferenças de pontos de vista, acentuados em minhas trocas de emprego em busca de melhores oportunidades ou insistência em tirar férias de 30 dias todos os anos, algo inimaginável para um silencioso. Hoje não mais discutimos, creio pelo fato de já estarmos ambos ultrapassados em relação a nova geração y. Inteligentes, rápidos, ousados e multitarefas querem mudar o mudo, aliando trabalho e vida pessoal em projetos que lhes tragam prazer, tais como os jovens do Vale do Silício. 
Por fim, a morte de Mita Diran, aliada à pergunta ingênua de minha filha de dez anos sobre se ainda havia escravidão na Indonésia, me fez repensar os conceitos e valores que venho incutindo com meus discursos a uma integrante da nova geração z. Pontuar os pontos fortes e fracos de cada uma das escolhas, as consequências em sua vida pessoal, respeitando as diferenças entre gerações talvez seja o caminho mais indicado, reforçando sempre os malefícios dos excessos, seja em frente a um tear ou um notebook. 
 
Marcos Morita é mestre em Administração de Empresas, professor da Universidade Mackenzie e professor tutor da FGV-RJ. 

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