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Monteiro Lobato e a tradição barretense
Caros leitores,
Somos bairristas com muito orgulho!
Hoje, Barretos é aclamada nos quatro cantos do país e até no exterior. Essa fama vem de sua tradição na pecuária, a Exposição de Gado e Produtos Derivados, a Festa do Peão de Boiadeiro e nos últimos tempos, pelo Hospital do Amor. Neste ano, foi galgada à condição de Estância Turística, sendo que, no passado era considerada a “capital da pecuária paulista”, e outros títulos.
A tradição na pecuária remonta ao século XIX, a partir da geada de 1870, que transformou a mata fechada em grandes pastagens e propiciou a engorda do gado. A partir daí surgiram diversos matadouros. Entretanto, três grandes acontecimentos fizeram Barretos tomar novos ares no início do século XX, na gestão do prefeito Silvestre de Lima: a chegada da Estrada de ferro, em 1909, ligando a cidade à capital paulista; o advento da luz elétrica, em 1911; e por fim, a inauguração, em 1913, da Companhia Frigorífica Agro Pastoril, o primeiro frigorífico do Brasil, cujo proprietário era o Conselho Antonio Prado, um exponencial empreendedor, que colocou a cidade no mapa econômico do Brasil, Durante a primeira guerra mundial (1914 – 1918) a empresa foi vendida à Brazilian Meat Company, de um grupo inglês, e iniciou a exportação de carne, obtendo resultados auspiciosos. Em 1924, a empresa foi adquirida pela S.A. Frigorífico Anglo, também de origem inglesa.
De fato, a terra dos Barreto e dos Marques era afamada pelos seus pastos e a qualidade do gado a ser abatido. Constatamos na obra do grande escritor brasileiro, Monteiro Lobato, em seu conto ‘Bugio moqueado’, escrito em 1925, inserido no livro “Negrinha”, publicado ainda na década de 1920, tal prestígio. O conto é uma narrativa rural brasileira, onde dois peões de comitivas conversam em um bar, sendo que, um deles, relata uma história horripilante, que presenciou na fazenda Tremedal, em Mato Grosso, do coronel Teotônio, onde foi comprar um lote de gado. Ele cita Barretos, de maneira elogiosa. Naquela época, a cidade, ainda possuía ares de currutela, com poucas ruas e de chão batido, por onde passavam as boiadas e o município um grande celeiro da pecuária.
Ele disse: “Lá escolhi o lote que me convinha. Apartamo-lo e ficou tudo acertado. . .”
No entanto, ao cair da noite, no casarão sombrio da fazenda, onde pernoitou, o peão viu-se diante de uma história pavorosa. A sala de jantar, escura e abafada como uma alcova, exalava um cheiro estranho, semelhante a uma carne mofada, que lhe causava repugnância. Na sala, apenas ele e o coronel Teotônio, homem sisudo e de poucas palavras. Por fim, após muita insistência do coronel, entra uma mulher pálida, com a tez cadavérica, enfim uma morta-viva, que era obrigada a comer um pedaço de carne preta, que estava em um prato, tal qual um bugio moqueado. Ela, ao ver tal petisco, estremeceu. Algo estranho acontecia. O seu olhar era um pedido de socorro.
“ . . .coisa que você nem acredita, dizia um deles. Mas é verdade pura. Fui testemunha, vi! Vi a mártir, branca que nem morta, diante do horrendo prato . . . Era longe, continuou o homem, mas lá em Mato Grosso tudo é longe. [. . .] É cada estirão! Mas, fui ver o gado. Queria arredondar uma ponta para vender em Barretos, e quem me tinha os novilhos nas condições requeridas, de idade e preço, era esse coronel Teotônio, do Tremedal”.
No epílogo da história ele toma conhecimento, através de um peão que contratara em Três Corações, MG, que o tal “bugio moqueado”, era na verdade seu irmão, que trabalhara na fazenda do Tremedal e fora assassinado pelo coronel, pois o mesmo, segundo as más línguas, engraçara com sua mulher. E de tanto apanhar no tronco, morreu. Depois foi moqueado e comido. Continuou o peão, “penduraram aquela carne na despensa, e todos os dias vinha à mesa um pedacinho para a patroa comer . . .”.
A história é macabra, mas o gado era bom para vender em Barretos!
(LOBATO, Monteiro, Bugio moqueado. In: . . . Negrinha. São Paulo. Editora Brasiliense. 1959. (pp. 31-39)
José Antonio Merenda
Escritor, historiador e membro
da Academia Barretense de Cultura
(ABC) – Cadeira nº 29