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quarta-feira, 27 de abril de 2016

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Minha querida Lisboa, quando lhe verei novamente?

Já havia passado por situações semelhantes em outras ocasiões. Foi assim na viagem para o Uruguai, para o Uruguai novamente, e ano passado (ou fora este ano?) para novamente, adivinhem, Pindamonhangaba. Mas dessa vez seria diferente. Esta mesma síndrome de aguas passadas não me alcançaria outra vez. Este costumeiro cálice amargo não faria parte deste trajeto. O destino? Lisboa. Minha querida Lisboa. Lisboa de Fernando Pessoa (nunca li nada escrito por ele). Lisboa dos famosos pasteizinhos de Belém. Lisboa dos nossos antepassados, dos nossos queridos colonizadores, dos nossos queridos irmãos portugueses, os quais não cansamos de agradecer por levar nosso ouro e nossas iguarias, e nos deixar as piadas e as padarias. Mas tudo bem. Lisboa em si mesmo não era meu destino principal. Para ser mais exato, estaria há alguns poucos quilômetros da capital, na tranquila e pacata São Domingos de Rana. Já no avião, ouço o sotaque português de Portugal do piloto e me animo! Não estava indo para o Uruguai! Não, senhoras e senhores. Não desta vez. Não haveria doces de leites, “chivitos” (lanche típico) ou mar “avermelharanjado” (ora tom avermelhado, ora tom alaranjado de Montevideo). Muito distante disto. Meu destino era Europa. Isso mesmo, Europa! Outro continente. Outra pegada. Imagina as lindas fotoscom imensos sorrisos postadas no facebook? Pena que não tenho facebook. Ao menos mandaria algumas fotos no grupo do whatsapp. Droga! Eu também não tenho whatsapp. Tudo bem, ao menos tiraria belas fotos, colocaria num belo álbum e poderia mostrar para todas as visitas em casa mesmo. Droga! Eu nunca recebo visita! Melhor deixar essa historia de fotopara lá. Enfim, o destino era Europa, continente aclamado, destino turístico de milhares de viajantes, e logo eu estaria lá! Ao ser recepcionado por um senhor no aeroporto, me senti feliz e acolhido! Mesmo ele sendo brasileiro, e dizendo que seu nome era Renato, não sei por que insisti em chama-lo de seu José. Seria o bigode? Enquanto a conferencia começava (o motivo da viagem era uma conferencia) me esqueci por completo da síndrome que costumeiramente me assediava em outras viagens. Mas logo veio à tona. No dia seguinte a minha chegada, começo a pensar compulsivamente em minha família, minha esposa, meus filhos, meus cachorros, minha mãe, minha cama, meu chuveiro, meu carro, meu sabonete, meu vaso sanitário… Meu Deus! O que estou fazendo aqui? Imediatamente perceboque estou muito, muito longe e desejo voltar! Uma voz ressoa no mais profundo do meu eu existencial: “a verdadeira felicidade nunca esteve longe (seja Europa seja Uruguai), mas sempre esteve ali pertinho, nas coisas simples do dia a dia…” Um pouco tarde, confesso, para esta digníssima percepção. Não há mais volta! A conferencia segue. Eu sigo também. Mas dessa vez prometo a mim mesmo que da próxima vez vou pensar duas vezes antes de largar tudo e todos e partir para a Europa (#não partiu)! À minha frente, o calendário parece se tornar infinito. Suportaria eu o peso da distancia e do tempo separado daqueles que mais amo? Suportaria eu saber que meus filhos estão crescendo e eu não estou presente? Perderia eu a apresentação musical inesquecível da escola, ou a nota dez que nunca veio em matemática, ou a primeira palavra pronunciada pela minha pequena princesa? E se eles se machucassem? E se ralassem o joelho? O cotovelo? E se tivessem febre na calada da noite? E se? E se? Talvez outro homem tomaria o meu lugar na educação dos meus filhos! E se este energúmeno, hipócrita e escrupuloso lhes ensinasseque beber e fumar é legal e esse tipo de coisa? Quanto tempo mais eu resistiria? Quanto tempo mais suportaria? Atordoado, bato na minha cara e falo comigo mesmo:“Coragem cara, são apenas 5 dias!”  Maspareciam 5 meses, eu juro! Quando a conferencia enfim acaba, tenho um dia livre, desta vez em Lisboa. Ah, doce Europa! Além do frio insuportável, pedintes de rua estão em todasas esquinas! (isto também foi importado do Brasil?) Penso que deve ser apenas um momento pós-crise econômica mundial. Nos famosos bondes, os alertas de batedores de carteira estão em todos os lugares.(Estou de volta ao Rio de Janeiro ou estaria na Praça da Sé?)Na porta de um pequeno mercado, me arrisco a comprar alguma guloseima que não fosse pastelzinho de Belém (não aguentava mais) e me deparo com um louco pulando e gritando em algum dialeto desconhecido e dançando próximos aos caixas. Fingi estar cego para tudo aquilo. Ainda estou na Europa. O velho continente, dos monumentos históricos, dos museus, das fontes que jorram agua gelada em cada bela praça! Nada vai roubar isto de mim! Depois de participar de uma corrida de rua promovida por uma loja de grife no final da noite, volto para o hotel com o joelho arrebentado! Maldita Europa! Que vão todos para…! No dia do meu regresso, enquanto escuto o sotaque português de Portugal do piloto anunciando o tempo do nosso voo, dou graças a Deus por voltara minha velha e boa rotina. Lembra-se da moral sobre a verdadeira felicidade? Tudo o que mais quero neste momento é rever a minha família!Após horas de turbulência (bônus), finalmente estou em solo brasileiro! Quanta satisfação! Ao chegar em casa, vejo minha linda e bela família, os cachorros, os gatos, os peixes, os papagaios, minha esposa usando minha mesa do escritório como porta danone do bebe, meu filho que foi mal na prova, minha bebezinha com dor de barriga, minha mãe com dor na perna, braço e perna de novo, os xixis e cocos dos bichanos espalhados pela salae só penso uma coisa: minha querida Lisboa, quando lhe verei novamente?
 
 
Levon de Araújo Coutinho é casado, pais de 2 lindos filhos, estuda teologia em curso livre, e é barretense de coração.

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