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domingo, 29 de maio de 2022

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Médicos em Barretos: “safra” antiga distanciada, “safra” nova improvisada e bons candidatos a virem atuar em Barretos fugindo diante da má fama já “consagrada”

O agravamento da qualidade do atendimento de saúde oferecido aos barretenses, com o modelo monopolizado pelos proprietários do Hospital do Câncer (e rebatizado como Hospital de Amor) tem gerado consequências sérias ao longo dos últimos 4 anos.
A qualidade da Medicina Geral da Santa Casa e dos postos de atendimento público da cidade está cada vez mais distante do ideal, piorando dia a dia pela fama ruim decorrente da falta de carreira profissional e pela má perspectiva para médicos gabaritados e especializados que tenham vontade de vir atuar em Barretos.
Está claramente evidenciada a absurda coragem de colocarem Residentes Médicos, em fase de formação básica em Medicina Geral, para atender a grande população, sem a devida retaguarda de uma correta estrutura de ensino.
Incrível a passividade do Poder Público, como um todo, aceitar que recém diplomados, inclusive sem estarem em carreira de Residência, estarem atendendo uma população crédula de que seja qualificado o atendimento.
A Prefeitura é responsável direta pela grave falha, Câmara Municipal ciente e conivente e demais órgãos fiscalizadores silentes diante dessa realidade.
Um agravamento dessa falha é que a Gestão impõe aos poucos médicos mais graduados a obrigatoriedade de ensinar ao jovem médico iniciante, sem a remuneração devida aos professores, o que não acontece nos Hospitais de boas escolas de medicina do resto do País. É lógico que tempo dispendido e conhecimento repassado tem que ser recompensado.
Um detalhe importante: como os recém-formados e iniciantes numa Residência Médica, saem da faculdade sem formação mínima adequada, fica criada a crítica situação de um Mestre ou Professor precisar dispender muito tempo e um esforço muito maior para decidir corretamente cada caso atendido. É notória a sobrecarga da atividade na função mista de ensinar, resolver um caso e preservar qualidade e segurança do atendimento.
Imagine a gravidade da situação: profissionais médicos ensinando, sem remuneração devida (e justa), tendo em mãos jovens médicos, com boa vontade e louvada intenção, porém, sem estarem a saber o grau de desconhecimento de uma arte/ciência extremamente complexa. Chega a ser uma completa deslealdade com os aprendizes ou trainees, ficando explorados os poucos professores e, principalmente, a população atendida num verdadeiro crime, pleno de omissões e prejuízos.
No mundo civilizado do hemisfério norte, não se concebe que um médico “coloque suas mãos” em um paciente, antes de 6 anos de Residência Médica (entenda-se bem: após os seis anos de curso médico normal + 6 anos de Residência Médica) para não trair a confiança das pessoas que admitem ou aceitem prestarem-se a isso.
Jamais serem (os cidadãos atendidos) tratados como “bonecos de ensino” (vivos) ou cobaias em mãos de iludidos jovens buscando aprimoramento, confiando em que esse seja bem estruturado com PRECEPETORES, MENTORES, TUTORES E SENIORES em todos os setores de cada uma das especialidades médicas.
A desorganização no propósito do ensino tem gerado uma onda ruim, mal afamando a Medicina de Barretos, por conta de um monopólio irracional cujo objetivo é resolver as necessidades de uma faculdade de Medicina particular, ficando o interesse público relegado a um plano inaceitável, injusto e muito irresponsável.
O que se impõe no momento? Que o Poder Público retome a Santa Casa, como um Hospital de Clínicas, assistindo a todas as necessidades da população geral, porém, COM PROFISSIONAIS MÉDICOS E PARAMÉDICOS CONCURSADOS E COM CURRICULUM DE ESPECIALISTA OU NO MÍNIMO COM 6 ANOS DE RESIDÊNCIA MÉDICA GABARITADA E ACREDITADA.
O ideal é a imediata estadualização da Santa Casa, com gestão em nível de Hospital do Estado, livre de politicagem em nível de município e de exploração por terceiros, numa autêntica ficção lesiva ao sagrado interesse público. São barretenses enganados já há 4 anos, hoje totalmente cientes da falta de adequação em seus direitos de saúde.
Cabe ao atual Gestor, na posição de estar explorando uma função pública, usando o patrimônio público, procurar construir o seu Hospital Universitário, já que recebe volumosos recursos de fontes privadas, ao ponto de estar construindo hospitais de câncer em diversos Estados do Brasil.
O que está bem claro e evidente: a preocupação (de quem explora) não seria construir um novo prédio, mas, abusivamente, transformar a população SUS de Barretos como “massa de ensino” o que tem sido complacentemente aceito pelos dois últimos prefeitos: o anterior e a atual.
Se pode parecer insistência de minha parte, na tratativa dessa questão de interesse da população, deve-se exatamente ao efeito do monopólio aqui existente que coloca a todos, povo atendido, profissionais contratados em situação de tolerância típica de monopólios, mas que não pode continuar ameaçando vidas e seguranças de todos em suas doenças.
É um absurdo inaceitável, ver a Medicina avançar no mundo todo, principalmente no Estado de São Paulo, sendo transformada em transtorno e drama para a população da cidade.

 

Dr. Fauze José Daher
Ex Diretor Clínico da
Santa Casa de Barretos
Ex Presidente da APM
Regional de Barretos
Advogado

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