Ir para o conteúdo

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Artigos

Medicina atual e o critério para correto exercício profissional do médico: onde ambos estão?

Medicina brasileira está vitimada por uma permissividade absurda que leva a grande população a ser atendida de forma precária, perigosa e prejudicial no seu desfecho principal que é a saúde e a vida.
Tudo começa na terrível cadeia de formação de profissionais, nos dias atuais, em que se pode estimar que 90 por cento está longe do preparo mínimo para o exercício da verdadeira Medicina.
E essa é a sofrível cadeia: excesso absurdo de faculdades de medicina sem o mínimo recurso estrutural, Corpo Docente escassíssimo, inexistente ou em condição de apenas oferecer seus nomes (antes que estarem presentes), ausência de formação prática por falta de hospital escola, estando os verdadeiros “donos” preocupados com o ganho financeiro, totalmente indiferentes com o “produto” médico “fabricado” e, muito menos, pela população a ser assistida.
Do ângulo de baixo para cima, ou seja dos formandos para a cúpula formadora, gerações últimas são formadas sem compromisso com a carreira, sem comprometimento com o paciente, formados a custa de muito dinheiro, oriundos de famílias ricas, sendo daí desabituados ao trabalho ralado e penoso, típico do perfil de formação do chamado “médico raiz.”
Fator motivador mais polarizado para agradar a família antes que de vocação própria e idealismo da profissão. Sim: antes enriquecedora. Hoje: sendo forte alavanca inicial de retorno do dinheiro investido, porém, sem condições de dar a verdadeira especialização e gabaritagem técnica para um exercício sadio e dignificante para as décadas seguintes.
Entre o explorador da rentabilidade de uma faculdade caríssima e o objeto (alunado), há um elenco irresponsável do setor oficial (governo e órgãos para estatais) continuamente fazendo vistas grossas a essa realidade por mais de duas décadas: um desastre cada dia mais evidente.
Nesse escopo entram Ministérios da Educação (MEC), da Saúde, dos Conselhos de Medicina, também muito preocupados em ter suas fantásticas fatias de arrecadação, passando por Comissões Regionais e Nacional de Residência Médica assistindo a deformação dessa importante fase de especialização de profissionais como é a Residência Médica.
Criada há mais de século (EE UU) com finalidade do verdadeiro preparo profissional, antes de o permitir “colocar as mãos no paciente”. Hoje usam nossos Residentes como “mão de obra” barateada, com a maior desfaçatez, levando jovens bem intencionados, de forma ilusória, a uma situação de verdadeiro despreparo.
Em verdade, a instância de Governos Executivos e Parlamentares enlameiam suas mãos com sangue, ao permitirem o esfacelamento da profissão médica, desde a abertura de “enxurrada” de faculdades, indo à facilitação do desvirtuamento da posição do médico e do seu sagrado Ato Médico. Esse o papel, “bem cumprido” pelas bancadas tipo lobbies no entorno do assunto: suborno para abertura de faculdades, para “qualificar” malformados em países vizinhos, suborno para prestigiar indústria farmacêutica, suborno para privilegiar empresas de planos de saúde: um parlamento sempre disponível a ir até onde “precisar” mais.
Tudo isso, movidos por ideologias políticas com a frieza de não se preocuparem com as vidas perdidas (ou por perder), mesmo que seja durante uma Pandemia que maculou o planeta inteiro.
Calculo que há 30 anos, 36 faculdades de Medicina no Brasil eram capazes de formar 90 por cento de bons profissionais, marcadores da fama da boa medicina brasileira. Sim, 10 por cento dos médicos podiam deixar a desejar, diante do gabarito da boa maioria, porém, nela se apoiavam quando necessário decidir pelo que era melhor para o cidadão atendido.
Hoje com quase 360 faculdades no Brasil, proporção bem maior que na América do Norte e do que na China, 50.000 médicos formados por ano, estarão colocando em risco a vida de milhões de pessoas, com 90 % sem terem onde se apoiar para não decidirem da forma que não seja a ideal.
Onde estão os exames, feitos pelo CREMESP, que mediam todos os anos o nível de formação dos médicos paulistas? Já há alguns anos não os vemos…e os últimos demonstraram que menos da metade dos recém formados tinham competência mínima para exercer minimamente a profissão. O pior: uma prova de avaliação que era feita da forma mais elementar possível.
O que aconteceu? Essa verdade não merece mais ser aquilatada? Ou o poder/dever de fiscalização da Medicina que é levada ao povo passou a uma posição desprezível ou secundária?
Nunca foi esse o espírito do respeitável Conselho Regional de Medicina de São Paulo. Essa é uma verdade que precisa ser trazida a público pela tradicional e respeitada entidade.
Por fim, Prefeitos municipais e respectivos secretários de saúde e os “donos” de faculdades de medicina passam a assumir responsabilidades solidárias com as consequências das más formações e contratações de profissionais diretamente ligados aos insucessos do atendimento de saúde das respectivas comunidades.

 

Dr Fauze José Daher
Gastro-Cirurgião da Santa Casa de Barretos
Mestre em Ciências pela Univ. Fed. de São Paulo (UNIFESP)
ex-Diretor Clínico da Santa Casa de Barretos
ex-Vereador Constituinte de Barretos. Advogado

Compartilhe: