terça-feira, 01 de dezembro de 2020

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‘Me vê um desse do Bauru’

Caro leitor,
Tudo e todos têm história.
Hoje vou falar sobre o saboroso ‘bauru’, sanduíche conhecido no Brasil todo e até no exterior. Ele foi concebido em 1936, porém, há controvérsias quanto a data exata e a receita original, no bar ‘Ponto Chic’, no largo do Paissandu, nº 27, em São Paulo, onde era servido sanduíches e chope. A receita original era: pão francês sem miolo, queijo derretido, rosbife, tomate. Mais tarde, o estabelecimento acrescentou pepino em conserva, sal e orégano. Com o passar do tempo, e em locais variados por este País afora, adquiriu novas versões de preparo.
O bar ‘Ponto Chic’ foi inaugurado em 1922, por Odílio Cecchini, fanático torcedor do Palestra Itália e amante da boemia. Um lugar de vivas e agradáveis recordações. Possuía luxuosas instalações, com espelhos decorados, azulejos franceses, cristais importados, balcões e mesas com tampos de mármore de Carrara, um ‘point’ de encontros dos amigos. Era também parada obrigatória de escritores, poetas, políticos, intelectuais, artistas, jornalistas, futebolistas e todos os bacharéis da Faculdade de Direito do largo de São Francisco, principalmente durante a noite, quando as discussões políticas animavam as madrugadas.
Na agitada da década de 1930, no ‘Ponto Chic’ torcia-se pelo sucesso da Revolução Constitucionalista de 1932, através das ondas do rádio, na voz de César Ladeira conclamando os paulistas para lutarem pela democracia. Em 1937, um verdadeiro caldeirão da agitação política paulistana, no ‘Estado Novo’, implantado por Getúlio Vargas.
Na ‘Pauliceia Desvairada’, segundo Mário de Andrade, de boemia intensa, é que o estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, Casimiro Pinto Neto, boêmio, assíduo frequentador do ‘Ponto Chic, e conhecido pelo apelido de ‘Bauru’, em referência à sua terra natal, pediu um sanduíche diferente dos servidos naquele bar, como ele próprio relata a Ângelo Laccoca, autor do livro ‘Ponto Chic – um bar na história de São Paulo’: “Era um dia que eu estava com muita fome. Cheguei para o sanduicheiro Carlos […] e falei: abre um pão francês, tira o miolo e bota um pouco de queijo derretido dentro. […] bota umas fatias de rosbife junto com o queijo, […] bota aí umas fatias de tomate”. E estava pronto o mais famoso sanduíche. Continua Casimiro ao relatar: “Quando eu estava comendo o segundo sanduíche chegou o Quico – Antonio Bochini Jr. – que era muito guloso, pegou um pedaço do meu sanduíche e gostou. Aí ele gritou para o garçom, que era um russo chamado Alex ‘Me vê um desse do Bauru’.” Logo, os amigos de Casimiro iam experimentando e o nome foi ficando. Todos quando iam pedir falavam: “Me vê um desse do Bauru”.
Casimiro Pinto Neto, ‘Sua Excelência o Bauru’, nasceu em Bauru a 5 de abril de 1914, formou-se em Direito em 1940, mas logo largou a profissão para dedica-se à carreira radiofônica. Depois de exercer a profissão de ‘speaker’, como era chamado o locutor naquela época, em 1945, passou a ser diretor comercial da Rádio Pan Americana. Depois, foi trabalhar na TV Record, emissora de Paulo Machado de Carvalho, também em cargo de direção, até seu falecimento a 2 de dezembro de 1983, em São Paulo, aos 69 anos.
O famoso sanduíche ‘bauru’, tornou-se Patrimônio Imaterial do Estado, conforme Lei 16.914/2018, publicada no Diário Oficial do Estado no dia 29 de dezembro de 2018.
O bar ‘Ponto Chic’, prestes a comemorar o seu primeiro centenário, está estabelecido no mesmo local no Largo do Paissandu, mantendo em seu cardápio o famoso ‘bauru’, com a receita original.
Há uns dez anos, eu e meu filho João Vitor, fomos até lá, especialmente, para saborear o famoso ‘bauru’.
Valeu a pena!

José Antonio Merenda
Historiador e presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura

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