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Matar em nome de Deus?
Tenho em mãos o artigo de um sacerdote italiano, o Padre Giovanni Mazzillo,professor do Instituto Teológico Calabro, de Catanzaro, publicado num jornal de grande circulação na Italia (L´Avvenire), na ultima quarta feira, dia dez de agosto de dois mil e dezesseis, que trata dos Textos sagrados e a frágil “justificação” da violência.
A questão que o sacerdote coloca é se é possível matar em nome de Deus? Ele, partindo da revelação que Deus fez de Si a Abraão e Moisés – reconhecida e venerada pelas três grandes religiões monoteístas, ou seja que crêem num único Deus (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), reconhecem no mandamento “Não matarás” um dos mandamentos de valor absoluto que, uma vez dado por Deus, não pode ser infligido por Ele.
Caso Deus viesse a ordenar a morte, estaria contradizendo a Si próprio, estaria declarando falso o mandamento que Ele próprio deu. O autor acima citado diz “Deus não pode mandar ninguém matar, nem mesmo em Seu nome”.
Os casos que encontramos na Bíblia dos extermínios ordenados em caso de guerra, e mesmo o episódio da filha de Jetfé (Juízes 11,32-36) se revelam mais como interpretação humana do que vontade de Deus. Um dos episódios que ajuda a compreender isso é o sacrifício de Isaac (cf. Gn 22), considerado por Abraão como um ato de obediência a Deus, é, por sua vez, impedido e desautorizado por Deus que salva Isaac da morte, restituindo-o são e salvo ao seu pai.
Para as religiões monoteístas – afirma o Pe. Giovanni – Deus deve ser compreendido e pregado como Aquele que não quer a violência contra outro ser humano, nem pode querer, pois a sua imagem está gravada no ser humano e torna este participante da sua própria natureza divina (“Deus é amor”) .
Assim, afirma o nosso autor: “quando se diz que os assassinatos, os massacres, e os crimes desumanos perpetrados em nome de Deus não são atos de uma religião, isso significa que não são os de uma religião digna desse nome. De fato, não de pode matar em nome de Deus, gritando “Deus é grande”, porque, ao se dizer isso, afirma-se, nos gestos, o contrário. Afirma-se que esse Deus que mata e quer matar não é mais Deus, mas apenas aquilo que o violento imagina como tal”.
Dom Milton Kenan Junior
Bispo de Barretos