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quarta-feira, 14 de abril de 2021

Artigos

Lembranças de um médico do interior

Caro leitor,
Ao ler o livro ‘Lembranças de um médico do interior’, escrito pelo o dr. Maurilo Andrade Magalhães Gomes, recebido das mãos de sua filha Marita, uma das responsáveis pela publicação da obra póstuma, em homenagem a seu pai, 30 anos após a sua morte, fiquei impressionado com os detalhes narrados pelo autor: sua infância e sua vocação em ser médico; fatos interessantes da vida familiar; os ‘causos’ picantes na profissão; a ética; a lida diária dedicada à medicina; o se colocar no lugar do outro; sua vivência no Triângulo Mineiro, entre as décadas de 1930 e 1950; e a vinda com a família para Barretos, onde viveu entre 1957 e 1990, quando de seu falecimento.
O livro é narrado em primeira pessoa, sendo editado em agosto de 2020 por seus filhos: Marita, Lilia, Ivone e Carlos Thomaz. É uma obra de cunho memorialista, em que retrata uma época, que, infelizmente, possui apenas 50 exemplares, somente para distribuição no âmbito familiar.
Mas quem é esse dr. Maurilo Andrade Magalhães Gomes? – os mais jovens devem estar me perguntando. Ele nasceu em Belo Horizonte, MG. a 2 de dezembro de 1908, viveu uma infância pobre e o fascínio pela medicina. Estudou na Escola de Medicina, da Universidade de Minas Gerais, em BH, onde graduou-se em 1932. Contraiu matrimônio com Guiomar Corrêa (Mazinha), tendo nascido dessa união, os filhos: Marita Corrêa Magalhães de Paula, Lilia Corrêa Magalhães de Carvalho, Ivone Corrêa Magalhães de Souza e Carlos Thomaz Corrêa Magalhães. Teve como sogros, considerados por ele, como seus pais: Fradique Corrêa da Silva, político e primeiro prefeito eleito de Campina Verde, MG. e sua esposa Olinda, “o vovô Dique e a vovó Linda”, nas palavras de seus netos.
Ele começou a clinicar, ainda, em 1932, logo após sua formatura, em Campo Belo do Prata, futuro município de Campina Verde (1938), no Triângulo Mineiro, MG. Em sua vida profissional foi diretor-clínico do Hospital São Vicente de Paulo, daquela cidade. Atendeu inúmeros pacientes, de fazendeiros aos mais humildes, e por gratidão foi padrinho de mais de duzentos recém-nascidos.
No entanto, deparou com poderosos inimigos da saúde pública, a falta de saneamento básico e higiene da população, muita sujeira e a proliferação de insetos, a convivência com animais, somando-se a isso o erro na alimentação, que agravava as doenças do povo. Estradas intransitáveis. Apesar de possuir automóvel, na maioria das vezes só no lombo de um animal para chegar ao destino. As dificuldades enfrentadas por um médico do interior, e, em muitos casos o único na cidade. Naquela época a medicina era exercida empiricamente, onde as receitas eram prescritas, após diagnosticar uma doença apenas pelos sintomas, sem uso de exames mais aprofundados, como acontece hoje. Ele lutou ferrenhamente a favor da vida. Entre erros e acertos, no balanço, ele acreditava que o saldo fora positivo.
Nem tudo são glórias! O autor relata as ingratidões sofridas, por pessoas que antes foram atendidas por ele, em momentos difíceis de suas vidas, mas quando ele se enveredou para a política, em Campina Verde, causaram-lhe desapontamentos.
Em 1957, com a saúde abalada, aos 49 anos, mudou-se para Barretos. Porém, não exerceu mais a medicina. Ele havia assumido a propriedade rural herdada do sogro. Embora não exercendo mais a profissão, muitos pacientes de Campina Verde vinham a Barretos, para ‘tirar uma segunda opinião’, tal era a confiança depositada nele. Na cidade foi grande amigo dos médicos Astolpho Araújo e Francolino Galvão, entre outros.
Faleceu a 3 de setembro de 1990, aos 81 anos.

Jose Antonio Merenda
Historiador e presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura

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