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Lampejos de satisfação
– Filha, você sabia que os dinossauros existem?
– Não existem não, eles estão “morridos”.
– Quem te falou isso? Eles existem, mas não aqui na cidade, eles vivem na fazenda… E no zoológico…
– Nada disso papai. Os dinossauros estão “morridos”! Antes, “agente” era “morrido”, e os dinossauros “vividos”, o mundo era só de dinossauros.
– E depois?
– Depois, os dinossauros ficaram “morridos”, e nos “vividos”. E aqui estamos!
– Tem certeza disso filha? Não existe nadinha de nada de dinossauros, nem mesmo aqueles fofos filhotinhos?
– Dinossauros não!
Que lição. Puxa. Não sobre dinossauros. Sobre crianças. Pensei que ainda pudesse ludibriar a pequena Lívia, com seus quatro anos recém-completados, com estorinhas fantasiosamente fantásticas. Que nada! Nossa conversa estava mais para umaaula de mestrado em paleontologia. Não paramos por ai. Algum tempo depois, perguntei o que ela queria ser quando crescer. Sua resposta não poderia ser outra: quero ser “fada do dente”! Tentei aproveitar o gancho: você quis dizer dentista? “Não, papai, fada do dente mesmo”- dentista cuida do dente, fada do dente “arranca” o dente! E olha que eu nem mesmo sabia que as fadas eram remuneradas. Será que elas recebem férias e décimo terceiro? Tampouco importa. Nesse universo dos quatro anos, onde os dinossauros estão morridos, e as fadas do dente vividas, o que importa são os lampejos de satisfação quea mente de uma criança podem nos proporcionar. Essa é a grande lição. Procuramoslonge, encontramos surpreendentemente perto, no sorriso de uma criança, num abraço apertado, num conto de esperança, num andar desengonçado, no cafuné dado, no falar acanhado, no dinossauro morrido e na fada vivida– esses momentos fantasticamente fantásticos e preciosos de alegria, simplicidade e satisfação.
Levon de Araújo Coutinho é barretense de coração, casado, pai de 2 lindos filhos