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Laços e enlaces do ser Mãe
Sabe aquela coisa do levantar-se já pensando nas atividades diárias? Café da manhã, uniforme, levar para a escola, preparo do almoço, cuidados com a casa, retornar à escola e, lá no fundinho, bem lá, continuar ouvindo os gritinhos das crianças ecoando, chamando incessantemente, ainda que nenhum deles esteja presente?
Ou quem sabe ainda, ouvindo o vocativo “mãe”, fosse procurando por uma qualquer coisa, guardada bem ali no lugar onde todos os dias esteve, alguém com fome, outro brigando, nas risadas ecoando concomitantemente a um outro se declarando no pé do ouvido: “mãe, eu te amo, você é a melhor mãe do mundo!”?
Pois é… Mas há um tipo de silêncio que só aparece depois de ter-se vivido tudo isso. E, não, não é um silêncio repentino, é um esvaziamento gradativo, querendo até ser polido, embora cá dentro possa ser tão dolorido que consegue até ser rude.
Naquela hora nos damos conta de que os filhos cresceram, ocuparam o mundo, e cá estamos nós, (me incluo nesse lugar), observadores da própria vida como quem assistiu a um filme que passou depressa demais.
Não, não se apavore, não há motivos. Tudo isso foi doação e nunca abandono. Mas, também não foi uma escolha consciente, foi um modo possível de existir, foi como soubemos e pudemos fazer.
Enquanto os filhos precisaram, estivemos ali, inteiras, plenas em nossa dedicação. O nosso corpo era para aquilo, o nosso tempo tinha um destino, um alvo, uma meta que fazia o dia ter sentido. Entretanto, aos poucos, sem que pudéssemos perceber, fomos deixando de lado o que não cabia na urgência da rotina, que não se incluía na emergência que o cuidar demandava.
E o que deixamos passar sem ter plena ciência? Talvez desejos, projetos, vontades mínimas que na urgência do momento, pareciam ser adiáveis. E lá íamos nós, sempre no depois, novamente depois e outra vez depois. Será que, o depois pode se tornar tarde?
Há mães que não envelhecem, se exaurem, escreveu Clarice Lispector, em seu livro de contos Laços de Família. Lispector escreve o inexprimível da vida doméstica. Ela contextualiza sobre mães que não desaparecem de repente, mas que vão diminuindo. As mães diminuem à medida em que os filhos crescem, como se a vitalidade tivesse sido transferida silenciosamente. Quando os filhos se vão, imbuídos dos próprios projetos – estudar, trabalhar, amar, viver, algo em nós também vai. Não é apenas a falta do filho à mesa, ou na casa, nas risadas, mas é a falta de nós mesmas na própria rotina. E aí a pergunta surge abruptamente, quase uma invasão: se ninguém mais precisa de mim, quem sou eu?
Esse sofrimento quase nunca é nomeado. Uns falam que é uma fase, que passa, que faz parte da vida. Mas há perdas que não precisam ser reconhecidas para causar danos. Esse luto aqui não é pelo filho que foi ali cuidar da própria vida, mas é pela mulher que ficou imersa numa vida que aconteceu em função do outro, na existência adiada até esvanecer-se no horizonte.
O vazio que se instala não é apenas temporal ou dimensional, é muito mais no subjetivo. Uma tristeza sem causa aparente, um cansaço que não se resolve com repouso, uma sensação de inutilidade que sabota e emudece. Muitas mães, e agora vamos chamá-las novamente, mulheres, sentem culpa por desejar algo próprio, como se viver para si fosse uma forma de abandono dos filhos, já que o amar quase sempre significou abdicar.
Nesse momento, entra a função da clínica terapêutica para lembrar que, talvez esse vazio não seja apenas perda, mas um interlúdio, um lugar que pode ser ocupado com a própria subjetividade.
Quando a mãe consegue reconhecer, sem julgamento, sem culpas, sem cobranças, que um pouco de si se perdeu, pode ser o começo de uma elaboração interna. Não dá para recuperar o tempo que se foi, mas cabe um realinhamento de rota, um planejar a vida que ainda pode acontecer, mesmo que seja de outra forma, noutro ritmo, noutro desejo.
O amor pelos filhos não diminui quando essa mulher ressurge; ao contrário, ele se humaniza e se materializa para si, até porque ninguém precisa desaparecer para que o outro seja. Assim, talvez o verdadeiro trabalho da clínica, depois que a casa silencia, seja mostrar a essa mulher que ela pode aprender a existir sem função definida, sem urgência, sem aplausos, sem plateia. Talvez seja apenas existir inteira outra vez, ciente dos próprios sonhos, desejos, expectativas; ciente de que o vivido não foi tempo perdido e que tudo valeu a pena. Pense nisso!
Para: Fernanda, Eduardo, Henrique e Daniel, pois com eles, tudo faz maior sentido!
Sada A. Ali
Psicóloga Clínica Hospital São Jorge
CRP 06/166892
