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terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Artigos

Laços de afeto não são laços de dependência

Muito tem se lido e ouvido da importância do acompanhamento dos pais, cuidadores, dos responsáveis pelo desenvolvimento biopsicossocial e material das crianças.
Como vem ocorrendo há um regular tempo, a necessidade da manutenção financeira de uma família é tarefa não apenas de um único provedor, mas uma dinâmica que exige esforço comum de tantos quantos dessa função puderem se ocupar. Esse fator demandou das crianças, um maior tempo na escola, creche, casa de avós, locais onde esses pequenos e pequenas pudessem permanecer até a volta para a própria casa.
Desse modo, podem existir algumas lacunas no acolhimento e criação provenientes da ausência causada por atividades profissionais e outras. Podemos citar como exemplos dessas lacunas, as inverdades proferidas, ordens e sentenças automaticamente repetidas, sem que a criança entenda a razão da correção, e note-se que, a palavra aqui escrita é a correção e não punição. Punir não é ensinar, mas castigar e bem se sabe que, onde falta a palavra reina a violência.
Falar em baixo tom, olhos nos olhos e apontando as razões do que se defende como saudável para as crianças são posturas essenciais que, poderão causar substancial diferença no decorrer do crescimento bem como no estreitamento dos laços afetivos. Laços afetivos não são laços de dependência nem de tirania. As crianças precisam entender o que está sendo apontado na correção e não serem tratadas como objetos de seus proprietários.
Françoise Dolto, psicanalista francesa, médica que se intitulou, ‘médica da educação’, já chamava a atenção no início de seus atendimentos psicanalíticos para o sofrimento da criança ligado ao que não foi dito ou cruelmente dito, às inverdades proferidas, mesmo que os responsáveis entendessem o mentir, encobrir, inventar como uma proteção para a criança. Não dizer a verdade pode implicar em gatilhos para fantasias, recalques, distanciamentos; ser o agente de culpabilizações e julgamentos nas relações familiares.
Para Dolto, (1908-1988), crianças e bebês são pessoas que necessitam ser ouvidas e vistas, já que, ainda de acordo com a psicanalista, “o silêncio provoca mais danos que a palavra”.
Laços de afeto entre a criança e família não precisam ser de dependência, mas de amor, respeito, entendimento e acolhimento. A verdade colocada de forma natural e de acordo com cada etapa da vida dos pequenos e pequenas tendem a fortalecer os vínculos afetivos e permitir o desenvolvimento de adultos com estrutura de ego preparada ao enfrentamento dos desafios e das adversidades da vida. E, também aptos a usufruir dos seus prazeres.

 

 

Sada A. Ali
Psicóloga Clínica

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