Artigos
JUSTIÇA X MISERICÓRDIA?
À primeira vista, pode parecer que misericórdia e justiça se contradigam. Para muitos, usar de misericórdia corresponde a dispensar a justiça, quando na verdade ambas são dimensões de uma mesma realidade.
Justiça é um conceito indispensável à sociedade social, diz o Papa Francisco, pois se refere a uma ordem jurídica através da qual é aplicada a lei; e na prática a justiça consiste em dar a cada um aquilo que lhe é devido.
Com certeza, a justiça exige daquele que erra que ele repare os danos provocados pelo mal cometido e assuma as consequências dos erros que praticou. Mas, a justiça mesma ficaria incompleta se limitasse apenas no plano da reparação. Para que a justiça alcance o seu cumprimento será necessário que ela se abra ao amor, e aí ela se torna misericórdia.
Na Bula de convocação para o Jubileu da Misericórdia, o Papa Francisco diz: “A misericórdia não é contrária à justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador oferecendo-lhes uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar” (VD n. 21).
E mais ainda: “A justiça por si só não é suficiente, e a experiência mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de destruí-la. Por isso, Deus, com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça. Isto não significa desvalorizar a justiça ou torná-la supérflua. Pelo contrário! Quem erra deve descontar a pena. Só que isto não é o fim, mas o início da conversão, porque se experimenta a ternura do perdão” (ibid.).
Justiça e misericórdia se completam! Com muita sabedoria Santa Teresinha do Menino Jesus aludindo à justiça de Deus escrevia: “A mim, ele deu sua Misericórdia infinita e é através dela que contemplo e adoro as outras perfeições divinas!… Então, todas me parecem brilhantes de amor; até mesmo a Justiça (e talvez mais ainda do que qualquer outra) parece-me revestida de amor… Que doce alegria pensar que Deus é justo, isto é, que leva em conta nossas fraquezas e conhece perfeitamente a fragilidade de nossa natureza. De que, então, teria, medo? Ah! Deus infinitamente justo que se dignou perdoar com tanta bondade todas as faltas do filho pródigo, não deve também ser justo para comigo que ‘estou sempre com ele’?” (Manuscrito A83v-84r).
Felizes os que compreenderem que justiça e misericórdia caminham sempre juntas, pois somente estes alcançarão misericórdia no dia do julgamento.
Dom Milton Kenan Júnior
Bispo diocesano