Ir para o conteúdo

sábado, 02 de março de 2024

Artigos

Juca Chaves – ‘O Menestrel do Brasil’

Caros leitores,
O mundo artístico musical e cultural brasileiro perdeu na noite de domingo, 26 de março, Juca Chaves, aos 84 anos, em Salvador, BA., onde residia.
Ele nasceu no Rio de Janeiro, foi batizado Jurandyr Chaves, a 22 de outubro de 1938, mas logo virou Juca, por obra de sua irmã Marly. Logo nos primeiros meses de vida mudou-se com sua família para São Paulo. Porém, há décadas trocou São Paulo e Rio Janeiro por Salvador. Ele era compositor, músico, humorista e questionador em suas composições. Foi crítico contumaz da política brasileira, com seus sonetos satíricos, nos quais provocava a sociedade que ele mesmo vivia. Era o seu jeito de fazer humor. Tanto é, que centenas de sátiras foram feitas, sobre políticos, pessoas da sociedade, problemas urbanos, câmara dos deputados, etc.
Durante sua trajetória, chegou a tentar o jornalismo como repórter nos Diários Associados, e, em seguida no jornal ‘Última Hora’, porém o que o levava a ser jornalista, na verdade, fora a vontade de apresentar a carteirinha e entrar de graça em cinemas e teatros.
Muito cedo começou a compor música popular, sua inspiração era constante. Como exemplo, o ‘Hino aos cachorros’, que compôs aos seis anos de idade, quando achava os cães mais interessantes que o ser humano; com doze anos compôs ‘Semente bonitinha’, homenagem à Neusa, sua primeira musa, era muito pequena para ser considerada um brotinho: “Neusa, pequenina, / Linda, linda, moreninha/ Semente bonitinha/ Quando tu cresceres/ Ficarei contente / Porém, ainda é agora / Semente / E você mente / Você mente bonitinha”.
Em uma revelação à História da MPB, da editora Abril, ele disse: “Eu era um turista na escola. Mas participava muito. Era o aluno mais musical. Sempre fui o show do colégio”. E, nas aulas de piano, por imposição de sua mãe, relatou: “A professora batia na minha mão e eu batia na mão dela”.
Em 1960, compôs “Presidente Bossa Nova’, inserido no LP RGE ‘As duas faces de Juca Chaves’, com lançamento em março daquele ano, um mês antes da fundação de Brasília. Assim diz a canção: “Bossa nova é mesmo é ser presidente/ Dessa terra descoberta por Cabral/ Para tal basta ser, tão simplesmente/ Simpático, risonho, original/ Depois desfrutar da maravilha/ De ser presidente do Brasil/ Voar da velhacap para Brasília/ Ver Alvorada e voar de volta […]”. No álbum ‘Nova História da Música Popular Brasileira/Abril Cultural/1978, existe o seguinte comentário: “A mordacidade de Juca Chaves, foi dirigida, nessa música, ao presidente da República na ocasião, Juscelino Kubitschek de Oliveira. Segundo comentários na época, Juscelino achou muito divertida a composição. Certa parte da crítica sempre analisou esse estilo de criação de Juca Chaves como um tipo de bufonismo contemporâneo, com o que faziam os bufões da Idade Média, críticos dos costumes da época”.
Juca Chaves se destacou por incomodar, nos anos 1960, a ditadura com suas modinhas e trovas, sua arte liberal. Um exemplo disso, é que Juscelino gostou da música ‘Presidente Bossa Nova’, e, na ditadura foi proibida. Na década de 1970, partiu para Europa, e lá ficou cerca de três anos, sendo catorze meses em Portugal, onde também desagradou o regime político da época, do ditador Salazar. Então foi refugiar-se na Itália, onde fez grande sucesso, participou de programas de tv, gravou oito compactos e um LP.
Foram centenas de canções composta por ele, entre elas; ‘Nas águas de Saquarema, na voz de Leny Eversong; ‘Onda’, cantada por Agostinho dos Santos; ‘Pescador’, interpretada por Hebe Camargo; ‘Baião Saliente’, na voz de Roberto Luna; e, ainda, ‘A tempestade’; ‘Menina’; ‘Aquarela de sonhos’, Musa infiel; ‘Por quem sonha Ana Maria?; ‘Nós, os gatos’; ‘Chapéu de palha com peninha preta; ‘Caixinha, obrigado …’; ‘Presidente bossa nova’.
Nos anos 70, o nosso menestrel enveredou-se pela arte circense, onde fez grande sucesso. No entanto, em meados da mesma década, Juca voltou a fazer seus espetáculos teatrais, tais como ‘O menestrel maldito’; ‘Senta que o leão é manso; ‘Vá tomar caju’ e o ‘Pequeno Notável’.
Apesar de suas sátiras contra o governo e os políticos, ele teve transito livre nas altas esferas. Como exemplo, durante o governo de Costa e Silva, foi recebido pelo presidente e sua esposa, dona Yolanda.

 

 

José Antonio Merenda
Escritor, historiador e membro
da ABC – Academia Barretense
de Cultura – Cad. 29

Compartilhe: