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quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Artigos

Jorge Andrade “Um filho ilustre de Barretos”

Caro leitor,
Hoje comemora-se o aniversário do dramaturgo brasileiro Jorge Andrade, e se vivo fosse, completaria 99 anos. Ele saiu de Barretos e ao longo de trinta anos de uma brilhante carreira, galgou fama e sucesso na dramaturgia brasileira, ao nos brindar com uma obra imensa e sólida, que até hoje é representada por artistas amadores, profissionais e estudantes de teatro, espalhados por todo o Brasil.
Em sua trajetória na dramaturgia escreveu para o teatro, cinema e televisão. Em certos momentos, esteve às voltas com a censura durante a ditadura militar; era intransigente com sua arte, não se deixando levar pelo sensacionalismo; retratou a realidade social ao registrar o homem brasileiro no seu tempo e espaço, com isso arrancou elogios da classe artística paulistana, como Fernanda Montenegro, Gianfrancesco Guarnieri, Ney Latorraca, Lauro Cesar Muniz, Walmor Chagas; aplausos do público e o respeito da crítica especializada, que compreendeu o alcance de sua obra, como Antonio Cândido, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi, Anatol Rosenfeld.
O nosso Jorge Andrade, batizado como Aluízio Jorge Andrade Franco, da estirpe dos ‘Junqueiras’, nasceu na fazenda Coqueiros, de propriedade de seu pai, em nosso município, a 21 de maio de 1922, onde viveu até os 28 anos. Durante dez anos trabalhou como fiscal de cafezal, e, em seu convívio diário com os colonos aprendeu a amá-los e a compartilhar seus sentimentos. Mergulhou fundo em suas raízes e em seu passado, inspirando-se para a criação de sua obra prima ‘A Moratória’ (1954), levando a crer que a arte imita a vida. Teve papel importante na renovação do teatro brasileiro, pois a última modernização ocorrera em 1942, com a peça ‘Vestido de Noiva’, de Nelson Rodrigues.
Ao deixar sua terra natal para estudar na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, na Capital Paulista, por imposição paterna, nada lhe adiantou, pois descobrira a sua inclinação para o teatro, ao se matricular, no princípio dos anos 1950, na EAD – Escola de Arte Dramática da USP, com o propósito de ser ator. No entanto, em um encontro providencial, com a atriz Cacilda Becker, a qual o aconselhou a seguir pelo caminho da dramaturgia. Daí perdemos um ator, mas ganhamos um grande dramaturgo, que com suas abordagens sociológicas nos levam a refletir sobre nossa história.
Em 1955 estreava ‘A Moratória’, peça autobiográfica, em que faz uma análise social ao retratar os aspectos da vida e a herança cafeeira. A obra é narrada em dois planos, o passado e o presente, 1929 e 1932, a saga de uma família de fazendeiro paulista que perde suas terras em consequência da queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque, ocasionando a decadência da aristocracia rural, ao levar os barões do café à bancarrota e as decorrentes mudanças na estrutura da sociedade paulista.
Em 1991 tivemos a honra de participar, ao lado de mais vinte e três artistas dos grupos de teatro barretenses, da encenação da peça ‘Vereda da Salvação’, sob a direção do ator Luiz Carlos Arutim. Esse drama teve como inspiração o massacre ocorrido em uma fazenda, em Malacacheta, MG, por volta de 1957, entre os donos do poder e colonos levados ao fanatismo religioso sangrento como única forma de se libertarem da opressão. Segundo Antonio Cândido, a peça é importante para a dramaturgia brasileira “(…) pela capacidade que o autor demonstrou de criar um grande símbolo para um grande problema social (…)”. Nos anos 2000 e 2002, atuamos na peça ‘Momentos Jorge Andrade’, compilados por mim e por Adalgisa Borsato, para o GTAAB em parceria com a ABC.
Jorge Andrade morreu, no dia 13 de março de 1984, aos 61 anos, no Instituto do Coração, em São Paulo, em decorrência de um edema pulmonar agudo. Seu corpo foi velado no Teatro Municipal de São Paulo, onde compareceram parentes, amigos e artistas que conviveram com ele, que na oportunidade enalteceram o dramaturgo e sua importância literária para o teatro brasileiro.
Desde o ano de seu falecimento, a ABC o homenageia com o Concurso Nacional de Contos ‘Prêmio Jorge Andrade’, que está em sua 18ª edição e a partir de 1989, a Coletânea de Contos ‘Prêmio Jorge Andrade’, em sua 6ª edição, além de ter seu nome gravado nas denominações do Teatro do UNIFEB e do Grêmio.
No ano que vem o nosso Jorge Andrade completaria cem anos, é imprescindível que Barretos se engalane toda para comemorar com dignidade o ‘centenário de seu filho ilustre’. Todas as forças vivas da cidade devem se unir para prestar-lhe essa honraria.

José Antonio Merenda
Ator, historiador e membro da ABC – Academia Barretense de Cultura – Cadeira nº 29

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