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segunda-feira, 02 de agosto de 2021

Artigos

Infância desaparecida

“Eu sou uma criança apenas na idade e na aparência”, diz E., de 9 anos, com naturalidade. “Mas em termos humanos, eu não sou. No passado, alguém de 12 anos era considerado jovem, mas não agora. Agora, aos 12 anos, você deve se juntar à Jihad.” E. se parece com qualquer criança da idade dele. Mas ele é um refugiado em um campo no sul da Turquia, local com forte presença do Exército de Libertação da Síria, e seu irmão adolescente que já se juntou aos combates do outro lado da fronteira. A centenas de quilômetros de distância, em Damasco, o mundo de J., de 14 anos, está enraizado no apoio ao presidente Bashar al-Assad, incluindo o pai e tios que lutam em uma unidade de defesa de bairro. J. lamenta “o quanto a crise mudou a gente; agora as crianças entendem e falam sobre política. Estamos todos prontos para morrer pelo nosso país”. J. e E. veem antigos amigos, agora do outro lado, como alvos de uma “lavagem cerebral”.
Na casa de M., de apenas 11 anos, a rotina começa cedo. A menina acorda todos os dias com sua mãe às 5:00h, ajuda no preparo do café da manhã e do almoço que ela terá de servir para si mesma e para mais dois irmãos de 8 e 6 anos. A mãe sai às 6:00h para trabalhar do outro lado da cidade, onde é empregada doméstica e cuida de outras duas crianças de 5 e 3 anos, para que outra mãe possa sair para trabalhar em um banco. A menina M. cuida da limpeza da casa, dá banho nos irmãos e os arruma para irem à escola. Depois do almoço, os três caminham cerca de dez quarteirões sozinhos para chegar ao colégio público onde estudam. Marcela ainda tem muitas dificuldades para ler e escrever. “Já levei um monte de bronca porque às vezes durmo em cima da mesa da sala de aula”, diz a menina, num misto de vergonha e culpa.
Segundo o Conselho Tutelar, o tráfico de drogas e a prostituição vêm recrutando crianças cada vez mais cedo, meninos de 8 anos e meninas de 11. O menino G. mora nas ruas de uma cidade no interior de SP. G. tem 9 anos e serve como “entregador” de papelotes de cocaína em um cruzamento de um “bairro nobre” na mesma cidade. T. fez 17 anos no mês passado; conta que ficou grávida aos 14 anos e o padrasto a colocou na rua. Logo que deu à luz, T. entregou o filho para a adoção e encontrou “abrigo” em uma casa de prostituição; “Às vezes, eu tenho muita saudade da minha mãe. Mas ela não quis mais saber de mim. Então, eu tenho que me virar, né?”.
No Malawi, um dos países mais pobres da África, quase metade da população tem entre 0 e 14 anos de idade. Tendo perdido seus pais por causa da Aids, muitos adolescentes já são chefes de família e lutam para ajudar a sustentar as famílias. Y., uma menina de 16 anos, cuida de três irmãos e ajuda U., de 13 anos a cuidar de outros dois irmãos. Y. e U. conheceram-se, quando foram socorridas pela ONG Nova África. As meninas e seus irmãos foram recolhidos em profundo estado de desnutrição.
L. é uma menina de 12 anos; nunca presenciou um atentado a bomba; não trabalha para sobreviver; não sofreu abuso; tem casa; estuda em um bom colégio; tem família, pai, mãe e dois irmãos; não faz ideia do que é passar fome ou frio. No entanto, L. também passa por um processo de abreviação da infância. L. ainda tem corpo de criança, com alguns sinais de puberdade. L. está confusa. Esteve em uma festa de aniversário de uma amiga; uma festa de aniversário de 13 anos. “Teve muita pegação na festa. Mas nenhum menino quis ficar comigo. Acho que é porque eu sou feia.”
Cada uma dessas crianças é nossa responsabilidade. Não interessa se ela vive aqui do lado, dentro da nossa casa ou do outro lado do mundo. Somos nós, adultos, que tomamos as decisões por elas. Cabe a nós fazer alguma coisa, qualquer coisa, para que esse desastre de proporções indeterminadas continue a ceifar vidas inocentes. Em algum lugar desse planeta, nesse exato momento, tem uma criança sendo violentamente arrancada de seu direito à infância. Algumas podem estar mais perto do que você imagina. Algumas são mais fáceis de salvar que outras. O que você pode fazer? Ora… Tudo! Algo! Pare um instante de dar demasiada importância à sua satisfação pessoal. Olhe. Preste atenção. Escute… Não vai ser muito difícil ouvir um pedido de socorro… Desde que você esteja disposto, de fato, a ouvi-lo. Desde que você se disponha a sair da cápsula confortável de alienação que o protege e resolva tomar posse do seu direito de agir.

Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita.

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