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sexta-feira, 06 de setembro de 2013

Artigos

Impactos do transporte nas mudanças climáticas

O setor de transportes é apontado como um dos maiores emissores de gases causadores do aquecimento global, não somente no Brasil, mas em todo o mundo. Estima-se que este setor esteja entre os cinco maiores emissores de gases de efeito estufa. A principal causa para estes elevados índices é a utilização massiva de combustíveis fósseis para o transporte de matérias-primas, produtos e pessoas.
Segundo o último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, na sigla em inglês), as emissões do setor de transporte foram estimadas em mais de 06 GtCO2e, representando cerca de 13% das emissões globais. Além disso, as previsões apontam para um rápido crescimento do transporte nos próximos anos, o que levaria a um aumento significativo nas emissões de gases de efeito estufa.
Para exemplificar a significância da contribuição deste setor para o aquecimento global, o levantamento final da pegada de carbono da Copa do Mundo da FIFA de 2010, na África do Sul, apontou que cerca de 67% das emissões foram referentes ao transporte internacional, basicamente ao transporte aéreo – ainda que nos cálculos tenham sido considerados a construção dos estádios e o uso de eletricidade em estádios e acomodações.
O cenário não deve ser muito diferente na Copa do Mundo que será realizada no Brasil no ano que vem. Estimativas preliminares da FIFA apontam que 83,7% das emissões de gases de efeito estufa do evento serão referentes ao transporte.
Devido a este cenário crítico, diversas pesquisas tem sido realizadas com o intuito de reduzir as emissões referentes ao transporte, principalmente do transporte aéreo. O IPCC aponta três diferentes caminhos para conquistar esta redução: evitar viagens com veículos motorizados, alterar os meios de transporte para aqueles com menores impactos e melhorar a eficiência energética dos meios de locomoção. 
Ao redor do mundo tem se percebido o aumento do transporte urbano em bicicletas e veículos coletivos e, consequentemente, o aumento da infraestrutura para estes modais de transporte nas grandes cidades – ainda que isso ocasione transtornos ao trânsito de veículos individuais, como ocorrido em São Paulo nas últimas semanas.
Mas apesar da alteração de comportamento individual ser muito importante para a melhora do cenário atual do transporte mundial, sem o incentivo à pesquisa e tecnologia para o aumento da eficiência energética e desenvolvimento de novas alternativas de transporte, a redução de emissões pode não ser suficiente para evitar as graves consequências das mudanças climáticas.
No setor aéreo, alternativas relacionadas ao aumento da racionalização do tráfego aéreo, redução do peso das aeronaves e aumento da capacidade de carga estão sendo desenvolvidas, mas seus impactos na redução das emissões deste modal somente devem ser percebidos em longo prazo. Por isso, a possibilidade apontada é a utilização de combustíveis renováveis, pois poderá trazer resultados de curto a médio prazo.
Em março de 2012 foi realizado o primeiro vôo comercial na América Latina em uma aeronave cujo combustível apresentava uma porcentagem de biocombustível, reduzindo assim as emissões de carbono. Outras iniciativas semelhantes estão sendo desenvolvidas ao redor do mundo, levando-se em consideração que para as mesmas serem adotadas em larga escala a adaptação para a utilização dos biocombustíveis não pode ser drástica ou muito onerosa, pois isso inviabilizaria sua adoção.
Com estas alternativas, a projeção é de redução das emissões de gases causadores do efeito estufa do transporte no mundo até 2050 – um cenário mais promissor do que o apontado inicialmente pelo IPCC. A boa notícia é que as previsões para as emissões de outros setores podem também se apresentar no mesmo sentido da redução, uma vez que a pressão da sociedade, a pressão exercida por acordos internacionais e o desenvolvimento de tecnologias mais limpas deverá estimular a adoção de comportamentos mais sustentáveis. Talvez não seja possível interromper o aquecimento global em 2°C, mas talvez não soframos com um aquecimento maior do que 6°C. Só o tempo dirá.
 
Marina Dall’Anese, gestora ambiental pela USP, analista de negócios da www.neutralilzecarbono.com.br e consultora da www.greendomus.com.br. 

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