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segunda-feira, 02 de agosto de 2021

Artigos

Impacto da covid na vida das crianças

Em 2020 aprendemos da pior maneira, o quão profundo um vírus tão pequeno pode impactar nossas vidas. Neste ano, 2021, esperamos que seja o ano que testemunharemos como a ciência e a mudança de comportamentos podem nos levar de volta a uma vida mais calma e próxima da normalidade.
Temos visto diariamente nos noticiários e confirmado pela Organização Mundial da Saúde que a COVID-19 afeta a vida de muitos adultos, com o surgimento de sintomas graves e alta transmissibilidade entre pessoas. Entretanto, pouco se fala em como a Covid-19 afeta a saúde das crianças, deixando muitos pais e familiares com dúvidas relacionadas ao desenvolvimento de seus filhos. Questionamentos neste sentido, são de extrema importância e não devem ser ignorados.
Estamos em um processo contínuo de aprendizagem sobre o vírus SARS-CoV-2, o vírus que causa a Covid-19. Os dados preliminares nos mostram que os idosos, principalmente aqueles com determinados fatores de risco, apresentam maior risco de desenvolvimento da forma grave e de morte associada à Covid-19, quando comparamos aos dados existentes para adultos jovens, adolescentes, crianças e até mesmo os recém-nascidos.
Em relação aos dados infantojuvenis, a Sociedade Brasileira de Pediatria divulgou, neste mês de março, uma nota técnica sobre os dados epidemiológicos da Covid-19 reunidos até o momento, deste modo, uma análise dos dados oficiais sobre hospitalização e mortes devido à Covid-19 foi realizada, além de disponibilizarem uma comparação entre os anos de 2020 e 2021.
O cenário epidemiológico que atravessamos atualmente é de aumento no número absoluto de casos, ou seja, houve um aumento de casos em todas as faixas etárias. Entretanto, o modo mais preciso para analisar os dados disponibilizados sobre hospitalizações e mortes por Covid em crianças e adolescentes de 0 a 19 anos é calculando a proporção dos casos em relação ao total. Desta maneira, os números mostram uma proporção de hospitalização pediátrica devido a Covid de 2,46% em 2020 e de 1,79% em 2021 em relação ao número total de hospitalizações por Covid. A proporção de mortes é de 0,62% em 2020 e 0,39% em 2021 em relação ao total de mortes por Covid.
Quando observamos somente as crianças de 0 a 5 anos de idade, os dados apontam para um cenário com números ainda mais baixos. A proporção de hospitalização foi de 1,27% em 2020 e 1,05% em 2021. A proporção de mortes devido ao Covid foi de 0,29% e 0,21% em 2020 e em 2021, respectivamente. Ou seja, até o presente momento, os dados existentes nos mostram uma menor proporção de hospitalização e mortes nas crianças e adolescentes em comparação ao ano passado.
Um dos aspectos já determinados até o momento é que de fato as crianças e adolescentes contaminadas apresentam, em sua imensa maioria, a forma clínica mais leve da doença ou a forma assintomática, e raramente a ocorrência de desfechos graves da doença, mesmo com as novas variantes do vírus. Várias perguntas continuam sem respostas, como por exemplo o motivo para explicar determinada proteção apresentada pelas crianças, mas hipóteses como a proteção cruzada, imunidade inata desenvolvida e menor expressão de receptores ao vírus foram formuladas e já estão sendo estudadas.
Apesar dos sintomas leves apresentados pelas crianças, do baixo número de hospitalizações e de mortes comparados aos números absolutos da doença, não significa que as crianças não estejam sofrendo com a pandemia. A UNICEF alerta que a interrupção das atividades do cotidiano significa muito para as crianças, principalmente para as crianças na primeira infância, que agora dependem exclusivamente dos cuidados dos familiares para atender todas as necessidades do desenvolvimento físico, emocional, social e cognitivo.
A maior preocupação é que a primeira infância é um momento único para focar na atenção integral, pois é nesta fase do desenvolvimento que existe uma janela de oportunidades que é decisiva para o desenvolvimento cerebral. A dificuldade em ofertar a atenção integral, que inclui acesso à saúde, nutrição adequada e estimulação precoce com fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia pode levar a alterações no desenvolvimento de estruturas cerebrais. Estudos já demonstraram que um ambiente estimulante, acolhedor e amoroso ajudam a determinar o desenvolvimento na primeira infância. Neste sentido, para diminuir o impacto negativo da dificuldade de acesso à atenção integral, o apoio da família é fundamental.

Dr. Everton Horiquini Barbosa
Professor da Faculdade Barretos
Fisioterapeuta Neurofuncional
Membro da Sociedade Brasileira de Fisioterapia Neurofuncional – ABRAFIN

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