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quarta-feira, 24 de julho de 2024

Artigos

Há pessoas que criam um deus que lhes convém

Continuemos a meditar sobre o Decálogo, aprofundando o tema da idolatria, e inspiremo-nos precisamente no ídolo por excelência, o bezerro de ouro, do qual fala o Livro do Êxodo (32, 1-8). Este episódio tem um contexto específico: o deserto, onde o povo está à espera de Moisés, que subiu ao monte para receber as instruções de Deus.

O que é o deserto? É um lugar onde reinam a precariedade e a insegurança — no deserto não há nada – onde faltam água, alimento, abrigo. O deserto é uma imagem da vida humana, cuja condição é incerta e não possui garantias invioláveis. Esta insegurança gera no homem ansiedades primárias, que Jesus menciona no Evangelho: «Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?» (Mt 6, 31). São as ansiedades primárias. E o deserto provoca tais ansiedades.

E naquele deserto acontece algo que desencadeia a idolatria. «Moisés tardava a descer da montanha» (Ex 32, 1). Permaneceu ali quarenta dias e o povo perdeu a paciência. Falta o ponto de referência que era Moisés: o líder, o chefe, o guia tranquilizador, e isto torna-se insustentável. Então, o povo pede um deus visível – esta é a armadilha na qual o povo cai – para poder identificar-se e orientar-se. E dizem a Aarão: «Faz-nos um deus que marche à nossa frente!», “Faz-nos um chefe, um líder!”. Para evitar a precariedade – a precariedade é o deserto – a natureza humana procura uma religião “descartável”: se Deus não se deixa ver, fazemos para nós um deus sob medida. «Diante do ídolo, não corremos o risco de uma possível chamada que nos faça sair das próprias seguranças, porque os ídolos “têm boca, mas não falam” (Sl 115,5). Compreendemos assim que o ídolo é um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos» (Enc. Lumen fidei, 13).

Aarão não sabe opor-se ao pedido do povo e cria um bezerro de ouro. No próximo Oriente antigo o bezerro tinha um sentido duplo: por um lado, representava fecundidade e abundância e por outro, energia e força. Mas antes de tudo é de ouro, por isso é símbolo de riqueza, sucesso, poder e dinheiro. São estes os grandes ídolos: sucesso, poder e dinheiro. São as tentações de sempre! Eis o que é o bezerro de ouro: o símbolo de todos os desejos que dão a ilusão da liberdade e, ao contrário, escravizam, porque o ídolo escraviza sempre. Há o fascínio, e tu deixas-te levar. Aquele fascínio da serpente, que fita o passarinho, o passarinho não consegue mover-se e a serpente apanha-o. Aarão não soube opor-se.

(Por: Papa Francisco)

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