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domingo, 05 de janeiro de 2014

Artigos

FORMAÇÃO PROFISSIONAL E GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE LAZER

Está garantido constitucionalmente que todos os brasileiros têm direito ao lazer. Não restam dúvidas de que o lazer proporciona desenvolvimento humano, saúde e educação para os cidadãos, portanto ser fundamental para o desenvolvimento das nações emergentes.
Em países mais antigos e, portanto, com uma história mais longa e democrática, trabalho, tempo livre, obrigações e lazer são melhor equacionados na vida cotidiana dos cidadãos, mas outros fatores necessitam ser destacados. Um deles é a questão conjuntural. No Brasil, vivemos em uma sociedade neoliberal, movida pela economia de mercado, que não valoriza os aspectos humanizantes da vida. Outro fator a ser destacado é o perfil histórico dos gestores públicos que atuam com as políticas de lazer e a relação destes com a política partidária, que favorece cargos a pessoal desqualificado. Por fim, a questão das políticas públicas para o lazer propriamente ditas. Neste caso, embora os fatores citados não se separem, este último demanda conhecimentos que ainda são escassos entre os gestores e se constituem em nosso foco maior de atenção neste pequeno ensaio.
Há uma tradição de se atrelar os estudos do lazer a áreas como Educação Física, Artes, Turismo, Administração e Arquitetura, entre outros, pois são profissões que habitualmente abordam estudos sobre o lazer, mas, a maioria dos gestores que atuam com o lazer em Secretarias Municipais e Estaduais como um todo, não possuem a formação necessária e suficiente para o desenvolvimento de políticas públicas de lazer de forma a não se constituírem em práticas assistencialistas e populistas.
Tais práticas não objetivadas para o lazer, além de inócuas, levam ao desperdício de dinheiro público e ao não cumprimento do direito constitucional a que tem todo cidadão brasileiro, já citado no início.
O alerta que se faz aqui se volta para a necessidade urgente de formação dos profissionais e na necessidade de na formação básica (em nível superior, em curso de graduação) ou em formação continuada (pós graduação) proporcionar ao profissional que atuará como gestor público, conhecimentos consistentes sobre política, lazer e sociedade ou sociologia do lazer, teoria do lazer, lazer comunitário, lazer e políticas públicas e setoriais e planejamento em lazer, entre outros.
Os conhecimentos supra citados permitem o desenvolvimento de ações estratégicas interdisciplinares, envolvendo secretarias municipais e estaduais de saúde, turismo, educação e lazer, que se bem geridas proporcionam desenvolvimento humano, descanso e divertimento às pessoas de todas os extratos sociais, gêneros e faixas etárias. Tal enfrentamento significa menos problemas sociais: violência, drogadição, sedentarismo, isolamento social, doenças, gravidez precoce, evasão escolar, abusos contra a vida, ou seja, desrespeito aos direitos humanos.
A escolha da equipe gestora é fator significativo, para os governantes, pois, ainda se verifica a predominância de grupos de sujeitos leigos, atuando na área, cabendo ao poder público fazer escolhas adequadas e proporcionar a sua qualificação de forma contínua.
O lazer e as políticas públicas da área necessitam ser bem geridos para que os cidadãos possam ter acesso a espaços e equipamentos de lazer. Há necessidade de desenvolvimento de projetos bem objetivados para serem desenvolvidos a curto, médio e longo prazo, com aproveitamento dos recursos disponíveis e conhecimentos suficientes para alavancar o desenvolvimento de projetos junto a outras instâncias públicas, para ampliação dos equipamentos de lazer (praças, parques, áreas de lazer, cinemas, teatros, bibliotecas, praças de esportes, clubes, centros comunitários, museus, casas de cultura, entre outros) e do seu potencial de utilização.
O lazer não pode continuar sendo confundido com o consumo de bens e produtos, ou seja, com o lazer mercadológico. Necessita ser divulgado enquanto fator educacional, de saúde e qualidade de vida pelo poder público através de políticas consistentes.
Neste momento histórico, os cursos de formação de licenciados e bacharéis em Educação Física, superam aos poucos a confusão conceitual entre lazer e recreação, que é extremamente prejudicial para a atuação profissional da área. Os cursos em sua maioria, ainda não estão aptos a preparar os gestores para interferirem com as políticas públicas de lazer, pois existem pouquíssimos cursos em funcionamento no país, com este enfoque, mas, os profissionais, sobretudo, os bacharéis em Educação Física, podem se especializar na área e desempenhar boas políticas junto aos turismólogos, administradores, arquitetos, historiadores, sociólogos, educadores, entre outros profissionais, também especializados, para darem conta das necessidades sociais urgentes da comunidade, com responsabilidade e ética profissional.
 
Profa. Dra. Luciene Ferreira da Silva
Docente e pesquisadora do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – FC/UNESP/Bauru – SP.

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