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domingo, 26 de maio de 2024

Artigos

Fim de Férias

Tarde típica de fim de férias de janeiro… É corriqueiro o encontro de mães com seus filhos em diversos supostos lugares, de qualquer cidade.

Não foi diferente naquela tarde, para mim e minha filha de quase 14 anos. Planejamos comprar os materiais escolares, tomar sorvete… No meio do planejamento encaixei uma passada rápida à delegacia para fazer o boletim de ocorrência de documentos perdidos, já que me dei por vencida e admiti que não iria encontrar meu RG e CPF desaparecidos, provavelmente em minha própria casa, já há um certo tempo.

Minha filha estranhou a visita àquele lugar tão inóspito, demonstrando até um certo medo ao subir as escadas que nos conduziam à recepção. Sentiu-se incomodada ao sentar em uma cadeira para esperar nossa vez, olhando com olhos atentos em direção a todos os lados.

Lá também encontramos uma mãe com seu filho adolescente, só que ela, infelizmente não havia perdido apenas os documentos… Pelo seu estado apreensivo, em meio a tremores e choro, percebi que havia perdido um pedaço do coração!

Tenho certeza que aquela mãe, assim como eu, também havia chorado quando viu seu filho pela primeira vez ao nascer… Passou noites sem dormir o ninando, o amamentando, e fazendo planos para seu brilhante futuro.  Aplaudiu com orgulho seus primeiros passos, sua primeira palavra, e tinha certeza que a escola seria seu segundo lar.

O mundo levou seu pequeno e eterno bebê, para um lugar diferente do que ela planejara, e por estar tão envolvida em trabalhar para lhe dar o melhor, nem percebeu…Pude sentir sua dor em cada lágrima derramada, em cada músculo trêmulo, em cada milímetro de oxigênio que respirava com dificuldade!

Um misto de alívio e tristeza me envolveram ao mesmo tempo. Alívio por estar ali com minha filha, apenas por um motivo corriqueiro; tristeza por não poder fazer absolutamente nada, por aquela triste alma, que padecia…

Ou melhor dizendo, por aquelas tristes almas… A da mãe, já destroçada, e a do filho, com um olhar perdido, sentado num banco sozinho; assistindo de camarote o que acabara de fazer com o coração de sua mãe. Ele com apenas15 anos, já carregava a malícia suficiente para cometer delitos, mas a sua essência contudo, exalava a inocência e o medo de uma criança; corrompida por um mundo cruel.

Após presenciar tudo aquilo, ainda fui envolvida por uma grande vergonha, pois aquele menino também era filho da sociedade a qual pertenço, filho do governo, filho da escola, filho da igreja… Todos deveriam estar ali juntamente chorando!

Acredito que o bem possa sim vencer o mal um dia, se todos nós fizermos nossa parte, para que mães e seus filhos adolescentes, estejam em delegacias ao fim de férias; apenas para relatarem documentos perdidos!

Erika Borges – cronista, escritora­, professora de Língua Portuguesa e mediadora de Biblioterapia

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