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segunda-feira, 24 de junho de 2024

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Felicidade ou facilidade?

Ser feliz é imperativo! A realização humana tem como fim último a felicidade e o sentido da existência consiste na busca permanente por este ideal. Ao mesmo tempo em que perseguimos esta meta deparamo-nos com a contradição, distanciando-nos da felicidade. O crescimento de catástrofes pessoais, familiares, grupais, sociais e humanitárias atesta esta verdade.
A busca pela felicidade é uma das poucas coisas que, de fato, pertencem ao ser humano. Ser feliz é direito de todos. No entanto, deve-se considerar, de fato, o real e verdadeiro sentido daquilo que buscamos. A felicidade consiste na combinação harmoniosa entre todos os fatores que são intrínsecos ao ser humano, em suas múltiplas relações. Para além de uma realidade a ser perseguida e desfrutada como propriedade privada (bem-estar, bem-comer, bem-viver e bem-dormir), felicidade é uma realidade a ser construída e compartilhada.
As gerações anteriores, sentindo-se castigadas pelas estruturas e modelos marcados, sobretudo, pela repressão, incumbiram-se de transmitir às novas gerações referenciais que, como respostas aos dramas sofridos, dispensassem toda e qualquer dificuldade, conflito, problema e desafio. Nasce assim a fatídica afirmação que, disfarçada de bondade e cuidado, mistura revolta e vingança: ‘quero dar ao meu filho tudo o que eu não tive!’.
Assim nasceram as gerações do mínimo esforço; quando colocadas diante dos dramas reais e necessários da vida, aos quais seus pais e avós, e, tampouco, seus modernos aparelhos podem solucionar, sucumbem na depressão, no pânico, nas drogas, no radicalismo político e religioso, no intelectualismo, no imediatismo e no perfeccionismo, expressões inconscientes de um doloroso pedido de socorro, já que não foram ensinados a dizer ‘preciso de ajuda’, uma vez que isso denota fraqueza e fracasso.
Faz-se necessário e urgente recuperar o verdadeiro sentido de felicidade, ultrapassando reducionismos subjetivistas que tornam o homem, cada vez mais, um egoísta devorador que jamais alcançará o que busca enquanto não aprender-reaprender a considerar tudo e todos que o envolvem.
Felicidade é sinônimo de caminhada: cada passo dado, à medida que nos aproxima, um pouco mais, daquilo que buscamos, nos realiza, inspirando-nos a prosseguir, fazendo os devidos ajustes e mudanças. Sem esforço, renúncia, entrega, sacrifício e perdas, permeadas pela consciência, liberdade e responsabilidade, elementos próprios do desenvolvimento humano, a felicidade apresenta-se cada vez mais distante, justamente porque é confundida com facilidade.

 

 

Ivanaldo Mendonça
Padre, Pós-graduado em Psicologia
ivanpsicol@hotmail.com

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