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segunda-feira, 04 de março de 2024

Artigos

Feita de retalhos

Sou feita de retalhos. Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. (Cris Pizzimenti)
Antes de iniciar, uma pequena observação. Esta frase é erroneamente atribuída à Cora Coralina, mas trata-se da poesia de Cris Pizzimenti. Esclarecimento realizado, sigo com o artigo pensando junto com vocês, leitores, o que a colcha de retalhos pode significar para cada um.
O que este trecho da poesia te levou a pensar? Disparou algum gatilho? Nada lhe causou? Pena não poder ouvi-los em suas respostas e indagações, mas sei que elas devem ter surgido.
Metaforicamente, podemos ampliar a colcha de retalhos para algo como o costurar das nossas experiências, os encontros e desencontros; as pessoas com as quais cruzamos em nossas vidas, para as quais algo deixamos e das quais algo também recebemos.
Entendo sermos atravessados pela herança genealógica e por todas as pessoas que um dia a nós se conectam sejam através de fatos, das perdas e de tudo o aquilo que você acredita pertencer ao seu interior; coisas boas e ruins, afinal a colcha pode representar a sua história construída na sutileza do dia a dia e bem sabemos que nem sempre consegue-se oferecer o melhor.
A sua “forma” vem sendo modelada e adaptada ao longo da história por meio do amor, por necessidade de pertencimento, acomodando as negativas que a vida lhe dá, a raiva, a dor, o acolhimento, o afeto. Lembram-se de frases como: você precisa comer, já é hora de dormir, do aviso para não chorar, para falar baixo, do colo e aconchego na hora do sofrimento, entre outras tantas situações que cada um vai reconhecendo no recôndito do seu íntimo? Pois todas elas são parte de você hoje!
Somos modelados e essas modelagens, por vezes podem afastar-nos da originalidade, podem causar embaraços feito novelos cuja ponta está invisível. E aí chega-se à encruzilhada do onde começo, do onde termino. Surgem outras indagações tais como: onde estou, para onde vou? Como manifesto a minha real essência? Como me despedir do outro para viver a própria vida? Como ser essa singularidade, essa pessoa que pensa, sente e ama por si mesmo se o olhar está atravessado pelo olhar do outro?
Muitas indagações foram feitas acima, mas estas a seguir são de grande relevância: Como recebo o que o outro me diz? Como isso reverbera em mim? Como escuto o outro, como reajo, como respondo? Quem em mim escuta? Lembre-se, não é o que o outro diz, mas o que você sente com o que o outro lhe diz. Não é o que foi feito a você mas o que você vai fazer com o que lhe foi feito, e principalmente, como andar por essa vereda com menor angústia. Menor, pois a angústia sempre existirá.
Quase finalizando, pretendo que as colocações acima o levem a refletir sobre quem você é, como está sendo a constituição da sua totalidade.
A questão primordial é ter consciência de si mesmo e a consciência de que o outro não é você. A clareza do sentimento, a forma como reagirá advém dessa escuta. Esses pensamentos de respostas são importantes para saber em qual lugar você está e o que fazer para mudar o que não deseja manter.
E aí? Como está sendo costurada a sua colcha de retalhos? Espero ter ajudado a desatar alguns nós, a encontrar a ponta do novelo. Pense nisso e até a próxima!
Sada A. Ali
Psicóloga Clínica
CRP. 06/166892

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