sábado, 28 de novembro de 2020

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Eu e o Outro

Levinas, um filósofo francês do século 20, diz que nos reconhecemos enquanto o que somos frente a existência do outro. Ou seja, para identificar o que me agrada, o que tenho como valor, o que faz sentido para mim, enfim o que sou, é preciso conhecer o Outro, que também tem o que lhe agrada, o que tem como valor e o que lhe faz sentido. Eu me construo frente ao Outro. É sobretudo, no encontro que essas diferenças se constroem, que essas diferenças aparecem. Assim temos, professor/aluno, médico/paciente, pai/filho, comerciante/cliente, gays/heteros, negros/brancos, crentes/ateus, letrados/analfabetos etc.
Perceba que foi utilizado o termo diferença para caracterizar a construção do eu e do outro, pois as diferenças existem e são inegáveis, assim sendo devem ser valorizadas. Pense em um japonês e um alemão eles são diferentes entre si, não tem como negar. O grande problema é quando essas diferenças são entendidas como desigualdades, colocando o japonês como superior em relação ao alemão, ou vice-versa. A questão é que na desigualdade há uma negação do Outro.
Um importante antropólogo chamado Levi Strauss estudando a questão do encontro das diferentes culturas entre os povos, ou seja, da relação eu/outro, chegou a um conceito que chamou de etnocentrismo. Para o autor, diante desse encontro há um choque cultural dado as diferenças existentes entre os povos, e diante dessas diferenças, dessas visões de mundo o eu tende a se ver como superior ao outro, com uma visão única do que seria verdadeiro e correto.
Essa percepção distorcida do eu em relação ao outro, muitas vezes não é por nós percebida de maneira consciente, pois já foi naturalizada e nós mesmos a reproduzimos. A negação da verdade do outro acontece muitas vezes por termos medo, pelo nosso eu se sentir ameaçado de perder a identidade. Como se para existir a nossa identidade precisasse negar a identidade do outro. Isso é tão forte que é despertado em nós emoções, sentimentos que misturam racionalidade com afetividade. Diante disso dá para explicar porque há posicionamentos tão calorosos frente a tantos assuntos que comportam a construção do nosso eu.
No etnocentrismo a visão do mundo do eu é o centro de tudo e o outro é sempre pensado, sentido e definido a partir do eu, daquilo que o eu acha certo. Desta forma, percebemos que há um juízo de valor, isto é um julgamento do eu ao outro. No etnocentrismo a diferença passa a ser desigualdade.
Várias são as formas de manifestarmos essas desigualdades. Uma delas é o riso. Já pararam para pensar que o riso na história já possuiu vários significados? Na Idade Média o riso não era valorizado, pois era uma expressão tradicional do povo. No Renascimento o riso passou a ser apreciado como consciência da verdade. Do que achamos graça hoje e rimos, com certeza não são das mesmas coisas que riamos antigamente.
O riso hoje, sobretudo, decorrente de piadas, que nada tem de inocente, é uma forma encontrada do eu desvalorizar o outro, ridicularizando, diminuindo, com a intenção de marcar as diferenças como desigualdades. O riso passou a ser fator de dominação, de denúncia social. Há uma necessidade de ridicularizar o outro para tentar valorizar o eu. E isso é etnocentrismo.
Uma das saídas do etnocentrismo é o relativismo cultural, ou seja, é ver que a verdade está para além da minha verdade, que há outros pontos de vistas e que esses devem ser levados em consideração. No entanto, quando se tenta colocar as diferenças como desigualdades não se está relativizando, quando a verdade do meu eu, é concebida com liberdade de expressão e nega o direito do outro com discurso de ódio por ser negro, ser índio, ser gay, ser mulher, ser pobre, ser gordo, ser velho essa verdade não constrói encontros, mas fortalece a falsa ideia de superioridade do eu. Não dá para relativizar quando o que se nega é a existência do outro. E não há riso que apague o outro.

Prof. Dr. Marco Monteiro

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