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terça-feira, 05 de março de 2024

Artigos

Eu e o andarilho

Caros leitores,
Corria o mês de agosto de 1982. Eu acabara de assumir a gerência a Caixa Econômica Federal na cidade de Guaraci, quando um fato inusitado, naquela semana, marcou a minha vida.
Era 24 de agosto, terça-feira. O ‘caixa’ da agência era Moacir, natural daquela cidade. Ele trabalhara em outras agências e, finalmente estava em sua terra natal. Até a semana anterior era lotado em Colina. Naquela noite fora até lá, para fechar a conta da pensão e despedir de seus amigos.
No dia seguinte, 25, se tornou um dia inesquecível. Quando da abertura da agência notava-se sua ausência. Era o único caixa. Como proceder? Onde estava Moacir? Então, pedi ao vigilante para ir até a casa da mãe dele, que ficava a poucos quarteirões dali. Minutos depois, ele retornava com a notícia, que ele não havia dormido em casa. Essa notícia abalou o emocional de todos.
Daí em diante foram dias de angústia e de turbulência. Liguei para Jorge, gerente da agência Colina, falei com ele, então me disse, que havia estado, sim, com Moacir na noite anterior, que saíram juntos, foram a um barzinho e, depois retornara a Guaraci. Então preocupado, imediatamente, percorreu a estrada entre Colina e Guaraci, e nada de Moacir! Chegou a contratar um helicóptero e, nada de Moacir! Enquanto isso, a Polícia Federal entrava em ação, poderia ser um sequestro ou outras coisas piores, por se tratar um empregado da CAIXA. Olímpia mandava um caixa para substituí-lo, para que a agência pudesse funcionar.
As buscas foram iniciadas. Muita falação e consternação na cidade. Até videntes entraram em ação. Foi uma semana tensa. Finalmente, para alívio de todos, após vários dias, o Moacir fora encontrado vivo, e se achava internado na Santa Casa de Misericórdia de Barretos. A polícia me informou que ele foi salvo por um andarilho, que vinha pernoitar no ‘passador de gado’, isto é, sob a rodovia Assis Chateaubriand, perto de Ibitu, na curva da Biquinha, entre Barretos e Olímpia. Corri logo para cá. Era madrugada e encontrei o meu amigo Moacir todo machucado, pronunciando palavras desconexas. Mais tarde fiquei sabendo que ele havia capotado o carro naquela curva e se arrastado até o passador de gado e, ali permanecera por vários dias.
Graças ao andarilho ele foi salvo, pois o mesmo conseguiu pedir socorro. Na volta, passei pelo local, onde a polícia havia indicado e conversei com ele. Eu e meus amigos, que me acompanhavam, oferecemos um lanche, cigarro e fósforo. Ele, porém, declinou do cigarro, pois não fumava.
No outro dia, eu o Geraldo, morador de Guaraci, levamos almoço para ‘seo’ João, o andarilho. Um amigo nosso, Dominguinhos, que vinha a Barretos, ofereceu seus préstimos a ele e, então, o mesmo pediu para trazer, se possível, a ‘Revista Veja’ e o jornal ‘A Folha de São Paulo’. A partir daí, ficou claro, que não se tratava de uma pessoa sem instrução, como é senso comum, visto tratar-se de um viandante. Ele era diferente. Por que será que percorria quilômetros e quilômetros a pé? Seria um pagador de promessas? Seria um peregrino? Alguma desilusão amorosa? O que acontecera para levá-lo a esse caminho? Foram várias as indagações.
Os moradores e autoridades de Guaraci estavam abalados com os últimos acontecimentos. Enquanto isso, a Câmara Municipal aprovava uma homenagem, ao conceder-lhe o ‘Título de Cidadão Honorário’. Chegado o dia da grande homenagem, foi uma surpresa vê-lo discursar na Tribuna, por cerca de meia hora. Era eloquente!
Ele contou a todos, que ia para São João da Boa Vista. Então várias pessoas se prontificaram a levá-lo ao seu destino. Porém, agradeceu a oferta, mas, que sua missão era caminhar. Ele deveria partir daquele ‘passador de gado’, onde, como um anjo salvara a vida de Moacir, rumo ao seu destino, caminhando.
Na despedida, em 04 de setembro de 1982, presenteou-me com o livro ‘ Diário de uma jovem”, de Anne Frank, com dedicatória, como lembrança de sua passagem pela cidade de Guaraci e cita vários versículos da Bíblia. Por fim assina: João Arlindo de Souza – ‘Águia – O Forasteiro’.
No final daquele ano, ele me enviou um Cartão de Natal, pelo Correio de São João da Boa Vista. Sinal que chegara ao seu destino.

 

 

 

 

 

José Antonio Merenda
Escritor, historiador e membro
da ABC – Academia Barretense
de Cultura Cadeira nº 29

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