domingo, 09 de agosto de 2020

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Ensinamentos esquecidos da Talidomida

Quem nasceu nos anos 1960 conhece bem a história da talidomida, uma droga lançada pela empresa alemã Grünenthal, em 1957, para combater o enjoo matinal comum entre as grávidas e ainda contra a insônia, dores de cabeça e tosse.
Em alguns anos de uso dessa droga, associaram-na ao nascimento de crianças com malformações graves. Estudos epidemiológicos revelaram uma forte associação entre o emprego da substância e o nascimento de crianças com problemas de desenvolvimento nas extremidades do corpo, a dismelia, Os efeitos da droga podiam ser ainda mais graves, atrapalhando a formação de olhos, aparelho digestivo e genital e até do coração. Boa parte dos bebês afetados não sobreviveu.
O uso da droga durante a gravidez foi banido no mundo inteiro, embora ainda seja indicada para complicações derivadas da hanseníase e da Aids, inclusive no Brasil. A Grünenthal seguiu os protocolos de segurança da época antes de lançar a droga no mercado. É de se esperar que esses protocolos sejam diferentes 70 anos depois, mas não é o que se observa, segundo matéria da Folha de São Paulo do ano passado.
A inclusão de mulheres na pesquisa biomédica ainda é baixa e muitos remédios são testados clinicamente em homens. E essa disparidade traz riscos à saúde da mulher pelas diferenças genéticas, bioquímicas e fisiológicas entre os sexos.
O estudo que em 1989 concluiu que tomar doses baixas diárias de aspirina poderia reduzir o risco de doença cardíaca envolveu 22 mil homens e nenhuma mulher.
Uma pesquisa publicada no Journal of American College of Cardiology revelou que os ensaios clínicos feitos em 36 terapias cardiovasculares, apenas um terço dos 224.417 participantes era de mulheres. Terapias que são receitadas para mulheres agora.
A disparidade ocorre até nas pesquisas de drogas para melhorar a sexualidade feminina. Pesquisa que investigou as interações entre a flibanserina (conhecida por supostamente aumentar a libido) e o álcool contou só com duas mulheres entre os 25 participantes.
O periódico científico The Lancet dedicou recentemente uma edição inteira às questões de gênero na ciência e na medicina. Analisou mais de 11,5 milhões de artigos de pesquisa médica publicados entre 1980 e 2016, na ciência básica, dois terços das pesquisas biomédicas ignoraram as diferenças entre homens e mulheres e não reportaram o sexo das linhagens de células usadas nos experimentos que, geralmente são masculinas.
Na pesquisa experimental, 80% dos animais testados são machos, segundo outra revisão de 2.300 ensaios pré-clínicos.
Também precisamos lembrar do mal da vaca louca. A moderna “engenharia” revolucionou o mercado ao inventar a ração feita com carcaças, entre elas as de carneiros. E isso foi muito bom e representou enormes ganhos, tanto na alimentação do gado quanto na redução dos custos. E a Europa prosperou, até que a epidemia de encefalopatia espongiforme bovina (BSE) ou vaca louca começou. O primeiro caso foi detectado em 1986 no gado britânico. É preciso lembrar essas lições, em remédios ou em alimentos, toda cautela e testes devem ser rigorosos, pois os custo pode ser incalculável.

Mario Eugenio Saturno (cientecfan.blogspot.com) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano

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