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sexta-feira, 19 de julho de 2024

Artigos

Engrenagente

Nos anos 1980, no auge dos movimentos operários no Brasil, Chico Buarque de Hollanda cunhou um termo curioso para definir os trabalhadores nas linhas de montagem: “engrenagente”. A discussão, portanto, não é de hoje, mas nunca foi tão urgente abordar a colonização da vida pelo mundo laboral.

É certo que o trabalho é definidor de quem nós somos. Não raro, se alguém pergunta “quem é você” ou “o que você faz”, elaboramos respostas relacionadas à nossa profissão. Somos médicas e médicos, e nos orgulharmos disso. O problema surge quando a carga excessiva e o estresse agudo da labuta nos tornam mais engrenagem e menos gente.

A classe médica é uma categoria profissional bastante suscetível ao esgotamento físico e mental – e, por consequência, à síndrome de burnout. O trabalho na área da saúde exige tomadas de decisão complexas, que desgastam as pessoas física e psiquicamente. Pesquisas recentes, a propósito, apontam que médicos lidam com níveis de estresse e carga emocional mais elevados do que a média da população.

O desassossego inerente à rotina de quem lida, muitas vezes, com o sofrimento e a morte de seus pacientes cria condições propícias para o esgotamento. As altas taxas da síndrome de burnout entre médicos são o retrato de um sistema que nos sobrecarrega sem piedade.

As rápidas transformações e a expansão da Medicina trouxeram também desafios inéditos. Ao ônus associado aos trabalhos do cuidado se somam fatores como o excesso de burocracia, as longas jornadas, o desrespeito entre colegas, a remuneração insuficiente, a falta de autonomia clínica e o aumento da informatização na prática médica, com o uso desmedido das novas tecnologias.

Um estudo conduzido em 2020 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com 1.054 profissionais da saúde – médicos, técnicos de enfermagem, enfermeiros e psicólogos, entre outros– revelou um cenário estarrecedor: mais da metade da amostra apresentava sinais alarmantes de burnout e sintomas sugestivos de depressão. Como reação, não é incomum que esses trabalhadores passem a se sentir culpados por não conseguirem abraçar tantas demandas.

A autocobrança é uma constante dos nossos tempos; a busca obstinada pelo bom desempenho e a sensação de que o dia tem (ou deveria ter) mais de 24 horas, por estarmos tão conectados, bombardeados por informações, nos cegam. Precisamos mesmo nos tornar super-humanos? Estamos desalentados, alheios àquilo que realmente importa.

É necessário cuidar dos que cuidam. Corrigir a rota, enxergar com mais clareza e focar nos nossos propósitos, encontrando um melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Desacelerando, quem sabe, rebrilharemos o olhar. Só assim será possível quebrar as engrenagens e tratar, como se deve, gente como gente.

Zeliete Zambon, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade

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