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terça-feira, 02 de março de 2021

Artigos

“Enem 2020: precisamos urgentemente falar sobre iniquidades”

Permanecemos em pandemia. Enquanto aguardamos a vacinação, ainda estamos em um período delicado onde as informações mais consistentes a respeito de prevenção se relacionam minimamente ao isolamento social e às medidas de higiene, tais como o uso de máscara e de álcool gel. Apesar disso, em meio à paralização das aulas em diversas escolas – principalmente da rede pública – e aos inúmeros desafios diante da preparação acadêmica durante um ano pandêmico, após um adiamento provisório, aconteceu nesse último final de semana o exame nacional do ensino médio.
Estudantes de todo o país se reuniram para realizar sua primeira etapa, mesmo sendo expostos a todos os riscos de contaminação, estando, por vezes, em salas lotadas que desconsideravam as medidas de segurança. Não foram raros os que sentiram inseguros ou desprivilegiados em relação ao evento.
Contudo, uma boa noticia permeou o dia da prova: a possibilidade de aumentar a ponderação acerca da saúde mental e de seus impactos na atual sociedade. Com o tema: “O Estigma Associado às Doenças Mentais na Sociedade Brasileira”, a redação do ENEM propiciou a reflexão, a despeito do aumento de casos notificados relacionados a transtornos psíquicos, sobre como ainda permanece cristalizada a visão preconceituosa relacionada àqueles que não se encaixam em determinado padrão.
Em uma sociedade que se apoia constantemente na concretude, essa possibilidade de expandir o olhar, quando o assunto é a doença mental, pode ser um contraponto essencial para que entendamos a necessidade da ampliação de discussões relativas ao tema. Falar abertamente sobre políticas públicas integrativas, principalmente para essa nova geração, que entrará brevemente no mercado de trabalho, pode impactar positivamente na forma como os sujeitos portadores de alguma síndrome serão acolhidos num futuro próximo.
Em um ano onde o desrespeito aos direitos humanos ficou tão evidente – onde o direito básico à saúde foi negligenciado diversas vezes – a abertura ao diálogo sobre ações facilitadoras na reintrodução do portador de um distúrbio, não apenas no mercado de trabalho, mas na sociedade e em sua própria família, pode resultar no resgate da melhoria da qualidade de vida, minimizando estigmas e tornando a inclusão algo mais orgânico.
Em tempos em que nos vemos obrigados a meditar sobre o óbvio, envolver mais pessoas na luta a favor da reinserção, aponta para uma pequena vitória na direção de uma sociedade com maior equilíbrio mental e equidade social.

Bruna Richter é graduada em Psicologia pelo IBMR e em Ciências Biológicas pela UFRJ, pós graduanda no curso de Psicologia Positiva e em Psicologia Clínica, ambas pela PUC.

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