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Embate de gêneros e a busca feminina pelo exercício da cidadania: caso da vereadora Camila Rosa
A vereadora Camila Rosa de Aparecida de Goiânia teve a fala interrompida, por determinação do presidente da Câmara, vereador André Fortaleza, quando lhe corta o microfone, exatamente em momento que defendia a representatividade feminina na política.
A hostilidade no ambiente político, que é predominantemente ocupado por homens, revela um machismo arraigado, que se fortalece por outras estatísticas, tais como as candidaturas fantasmas, onde partidos políticos se preocupam tão somente em preencher as cotas femininas, sem promoção da efetiva participação política.
Histórica e culturalmente a mulher é preterida das discussões coletivas e estigmatizada na figura da administradora doméstica. Por isso, mesmo com as fraudes eleitorais, onde mulheres são apenas números, por óbvio que queiram participar, para além da escolha do voto e para isso é necessário promover rupturas no sistema.
O machismo está tão latente, que se transforma em justificativa para pretensa busca pela igualdade, conforme se verifica na fala do vereador André Fortaleza, que aduziu que: “Não sou contra a classe feminina, sou contra cota, contra oportunismo, contra ilusionismo. Por mim, não adianta, pode ser mulher, pode ser homem, pode ser homossexual. […] Eu só falei que os direitos têm que ser iguais e os deveres também”.
Há um equívoco atroz em entender que somos todos iguais no Brasil e que por isso devemos ser tratados milimetricamente iguais. Estamos longe dessa igualdade e sim, estamos diante de uma modalidade de abuso contra a mulher: a violência política.
Sobre o estigma, podemos enaltecer a luta cotidiana da mulher, em busca de se firmar no mercado de trabalho, ter seu espaço no meio social e até mesmo familiar, sem as amarras das pechas que lhe foram impostas ao longo da história, dentre elas, da fragilidade ou incapacidade de se desenvolver por esforço ou mérito próprios. Noutro giro, temos a violência de todas as formas em detrimento da mulher, que lhe conspurca direitos, inclusive, aqueles relacionados ao exercício pleno de sua cidadania.
O machismo em qualquer esfera, aqui a política, traz consequências no desenvolvimento da mulher, por isso, indaga-se: A quem interessa um desenvolvimento descompassado, onde homens estão em movimento e mulheres estagnadas? Que sociedade ganha com essa disparidade?
O exercício da cidadania, no seu grande arcabouço de direitos e deveres, traz em um deles, os direitos políticos. O machismo é um obstáculo nefasto neste contexto!
O machismo nosso de cada dia, pode ser verificado em várias condutas, seja no microfone cortado no discurso, na justificativa das vestes insinuantes para normalizar o estupro, no acúmulo de trabalho doméstico (apontado como exclusivo ao sexo feminino) e profissional e tantos outros exemplos.
Na reflexão que se propõe, vale lembrar que o machismo é a concepção de que mulheres são subordinadas aos homens, mas o feminismo não é o oposto disso. O feminismo busca a igualdade e não a superioridade. Assim, voltando à fala silenciada da vereadora, cotas são cogentes, sim!
Tais cotas femininas ou leis que as protejam, seriam inconstitucionais? Respondo com muita segurança que não! A própria constituição nos fala que a verdadeira igualdade consiste em tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida de sua desigualdade, quer dizer, políticas públicas e ações afirmativas são necessárias para buscarmos igualar quem está em desigualdade. É a oportunidade de se reparar injustiças, dando efetividade e dinamicidade ao princípio da igualdade.
Aproveita-se o ensejo para desejar mais mulheres na política e que suas vozes não sejam tolhidas!
Letícia Catani.
Advogada e mestre em direitos
coletivos e cidadania.