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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

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Em seu nascimento, Deus se faz necessitado dos homens

Ao relatar o nascimento do Senhor, Lucas nos fala do primeiro recenseamento que César Augusto fez em toda a terra habitada submetida ao seu domínio. O recenseamento era o meio pelo qual César podia estabelecer os tributos que lhe permitiria patrocinar as guerras. Por isso o recenseamento é a autoexaltação do homem sobre o homem.
O Messias entra nesta história como aquele que serve, como pobre que não tem onde repousar a cabeça, para guiar os nossos passos no caminho da paz. Ele substitui a riqueza pela pobreza, o poder pelo serviço, a soberba pela humildade.
Deus aparece na história no exato momento em que o mal atinge o seu ápice e tudo parece irremediavelmente colocado em suas mãos. A noite mais escura anuncia o surgir da estrela da manhã. O momento oportuno, o kairós da salvação, é aquele mais inoportuno e improvável. Assim será também na segunda vinda: quando vier o maior mal, o anticristo, então voltará o Filho do Homem.
“Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto. Maria deu à luz o seu filho primogênito” (Lc 2,6). Esse ato insignificante, e não o grande primeiro recenseamento universal, é o centro do mundo. O Criador se doa à sua criatura, como filho no seu Filho, que se faz nosso irmão. A finalidade do homem é alcançar a Deus. Sendo isso impossível, no seu amor, pensou Ele mesmo em alcançar o homem. Nesta simples expressão: “deu à luz o seu filho”, que é o próprio Filho de Deus, nasceu a maior surpresa.
O Altíssimo se fez pequeno; o Onipotente, necessitado; a Palavra, criança; o Imortal, a alegria sem fim, um chorinho de uma criança, a fim de ser ouvido e abraçado por nós. É o mistério do amor de Deus, que nada teme e se expõe a toda pequenez e humilhação para alcançar o amado.
O relato diz que Maria “o envolveu em faixas”. Deus está necessitado do homem. Confiou-se às suas mãos, frágil e indefeso, agora é envolto em ternura; no final de tudo, envolto na morte.
Diz também que ela “deitou-o”. A mesma palavra que usa para “deitar”, é usada também para “comer”. O Pão dos anjos, o alimento descido do céu, aquele que dá a vida, é colocado no lugar onde comem os animais. Deus se doa como vida e alimento ao homem pecador. Esse é o seu “lugar”, nele mora e finalmente repousa da sua cansativa procura.
Deus, que é amor e acolhida, está necessitado de amor e acolhida, mas não encontra lugar entre nós senão junto aos animais e na manjedoura. Quem o acolher aí, no seu afastamento e tristeza, na sua estultícia e dureza de coração, na tarde do dia que sempre declina, Ele o acolherá e se tornará seu alimento. Então, como em Emaús, poderá abrir os olhos, porque terá alcançado a sua finalidade, estar com os discípulos como seu Pão. Os sinais da chegada de Deus ao mundo são a humildade, a insignificância, necessidade e acolhimento no lugar em que comem os animais. Vem à nossa verdade, porque nos ama. Expõe-se à rejeição. Mas está igualmente sempre ali, como dom sem condições.

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