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quinta-feira, 30 de maio de 2024

Artigos

Elogio à frustração

De acordo com estudiosos e pensadores a frustração, compreendida como contrariedade a desejos e vontades imediatas é tão necessária ao desenvolvimento humano quanto os outros elementos considerados essenciais. De forma simples e objetiva, o dicionário explica que a frustração acontece quando se quer fazer algo e não se faz ou não se consegue. O que seria de nós e dos outros se nossos desejos e vontades fossem imediatamente satisfeitos? O que a princípio soa como positivo, se converteria em grande dor, acarretando muitos males.
A frustração, experiência que nos acompanha por toda a vida, pedagogicamente favorece que: tomemos consciência de quem realmente somos, considerando nossas qualidades, limites e imperfeições; tomemos consciência de quem o outro é, considerando suas qualidades, limites e imperfeições; aprendamos a nos relacionar, saudavelmente, com aquilo que existe fora e para além de nós; ocupemos nosso lugar no mundo de maneira consciente, livre e responsável.
Imaginando-nos únicos, que nossos desejos e vontades devem imperar sobre tudo e todos, quando contrariados, experimentamos o sentimento de impotência. Tomados pela raiva tentamos destruir o objeto causador de nossa dor. Impedidos ou punidos, aquietamo-nos, deparando-nos com a oportunidade de digerir o ocorrido até que as coisas aconteçam no seu tempo, lugar e ritmo e, aquilo que buscávamos, aconteça na medida adequada, não como resultado de nossas imposições, mas de um processo, proporcionando-nos satisfação.
A baixa tolerância à frustração, ou seja, a incapacidade de administrar a contrariedades da vida colabora na deformação de pessoas, tornando-as desqualificadas para viver plenamente e, consequentemente, ocupar seu lugar no mundo de forma eficiente e eficaz. A cultura hedonista incute em nós a falsa impressão de que se todos os nossos desejos forem realizados seremos verdadeiramente felizes. Os resultados catastróficos desta cultura geram, cada vez mais, pessoas imaturas, irresponsáveis e consequentemente infelizes.
O amor, enquanto desejo do bem máximo a alguém ou a alguma coisa, exige, necessariamente, aprender a lidar com a frustração, uma vez que ela no educa em todas as dimensões, da física à espiritual. Considerando um processo de desenvolvimento equilibrado, é por amor que frustramos alguém na reta intenção de que aprenda, cresça e se desenvolva, sobretudo, quando não mais for possível estarmos ao seu lado. Assim, e só assim, teremos cumprido nossa missão de educar para a vida e o bem viver.

Ivanaldo Mendonça
Padre, Pós-graduado em Psicologia
ivanpsicol@hotmail.com

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