terça-feira, 27 de outubro de 2020

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Eis o tempo favorável!

Para nós católicos a quarentena exigida para evitar o contágio do coronavírus coincide com o tempo da Quaresma, que no Brasil é vivido no clima da Campanha da Fraternidade, e tem neste ano o tema “Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso”.
Atendendo as determinações das autoridades sanitárias, nossas igrejas, centros comunitários, obras sociais e secretarias foram fechando suas portas; mas, não somente nossos espaços, como bares, restaurantes, estabelecimentos públicos, lojas, shoppings, enfim, todos locais que concentram as pessoas estão fechados, obrigando-nos a ficar em casa.
Para muitos de nós, talvez esta seja a penitência mais dolorosa: não podermos fazer nossos passeios, ir com os amigos para aquela “cervejinha” no bar da esquina, não poder frequentar como de costume o salão de beleza ou a academia, ter que limitar a convivência com aqueles e aquelas que são os mais próximos e reaprender a escutar, a dar atenção, manter o bom humor (quando não temos vontade para isso!), e, mais frequentemente lavar nossas mãos, não como fez Pilatos na Paixão de Cristo, mas para que, por meio delas, possamos continuar a transmitir vida.
É a nossa vida que está em jogo! Mais uma vez nos encontramos diante de uma situação que coloca em risco todo o mundo pesando ainda mais sobre os mais vulneráveis, aqueles que estão expostos ao contágio mais facilmente, e aqueles e aquelas que mesmo em tempo de vida normal sofrem com má qualidade de vida em todas as épocas e pela vida toda.
A Campanha da Fraternidade nos desafia: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34). São palavras de Jesus! Mesmo isolados, em casa, precisamos ter a mesma atitude que teve o samaritano, mesmo que seja por meio das redes sociais, como através de pequenos gestos no dia-a-dia, como comprometer-se em ajudar um vizinho idoso que precisa de alguém que vá a farmácia para ele, ou então ao supermercado, ou ajudar numa faxina… Pequenos gestos fazem a diferença!
Outro dia, me dizia um jovem paulistano, que viveu e cresceu na periferia da Grande São Paulo, que para chegar ao serviço precisava tomar três conduções (três horas ao menos para ir e vir), e que conseguiu, finalmente, no início deste ano, locar um flat bem perto do trabalho. Com a paralisação dos transportes e podendo encaminhar seu trabalho pela internet, preferiu voltar para casa da sua mãe. Sabendo da vizinha que é enfermeira num grande hospital no centro de São Paulo, decidiu emprestar para ela seu flat para que ela não fique exposta aos riscos e possa continuar seu serviço de socorrer os doentes com mais tranquilidade sem colocar em risco também as pessoas da sua casa. “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”!
Tenho pensado que, neste momento extremamente novo que o mundo vive, podemos aprender ou redescobrir coisas tão importantes que podem mudar a lógica que nos têm dominado nestas ultimas décadas, e que é certamente a grande responsável pelos sofrimentos que se abatem sobre nós.
Creio que a realidade que vivemos exige de todos um Mea Culpa. É importante que pensemos que as pandemias surgem sempre do nosso descuido, da nossa negligência; assim como o rompimento de barragens, que aconteceram em Minas Gerais, no ano passado. Elas podem ter um alcance local como também mundial. Confessemos que, na ânsia por maiores lucros, fascinados pelo deus “dinheiro”, dando vazão a espiral da violência perdemos a consciência de que a vida é o bem absoluto. A vida do planeta, a vida dos seres humanos, a nossa vida, a vida dos que nos estão próximos e daqueles que estão distantes precisa recuperar urgentemente a sua importância, senão não vamos sobreviver.
Tenho pensado na atuação dos profetas no passado, na pregação de Jesus e dos Apóstolos e, nos últimos tempos, os muitos apelos de grandes líderes religiosos em favor do planeta que chega à exaustão. Aquilo que os profetas de Israel anunciavam, Jesus estendeu para todo o mundo: se queremos viver sob o Reinado de Deus é preciso aprender, com Ele, a amar. Amar a Deus que é Pai de infinita ternura e amar a todos nossos semelhantes.
Na tradição judaica e na tradição cristã a palavra dos profetas é sempre paradigmática (uma referência necessária). Há aqueles que dizem que os profetas que antecederam Jesus perderam sua importância, quando na verdade, o próprio Jesus diz: “Não penseis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim abolir mas cumprir” (Mt 5,17).
Os profetas sempre associavam as desgraças que se abatiam sobre o povo de Israel à infidelidade a Aliança. Quando enfraquecemos nossos laços com Deus, enfraquecemos nossos laços humanos. No dizer deles trata-se do verso e do reverso da mesma moeda que se chama humanidade.
Quando Jesus foi interrogado sobre a razão da morte de alguns galileus assassinados por Pilatos e por aqueles que foram soterrados em Jerusalém sob a torre de Siloé, Jesus disse: “Não penseis que eram mais culpados que os habitantes de Jerusalém. Eu vos digo que não: se não vos arrependerdes, acabareis como eles” (Lc 13, 4-5).
Hoje, também, não faltam profetas que apelam a nossa sensibilidade diante da voz de Deus que clama por nossa atenção. Eles nos falam que toda a vida, desde a sua concepção até o seu fim natural, é um dom de Deus que cabe a nós cuidar e proteger; pois, ao contrário colocamos em risco não somente aquelas existências, mas as existências de todo ser humano.
Será importante, também, nesta ocasião, ocupar nosso tempo, pois tudo indica que se prolongará por meses, com momentos fortes de oração e de leitura frequente da Palavra de Deus para vencermos o tédio e a desolação. Rezar seriamente! Colocar em todas nossas ações a súplica perseverante a Deus pelos que sofrem, pelos que lhes prestam socorro, as autoridades, os profissionais de saúde, os que asseguram os serviços indispensáveis em nossos municípios (farmácias, supermercados, padarias etc.) para que, sobre eles, repouse fortemente a mão de Deus!
Será importante que nestes dias procuremos animar-nos uns aos outros com a nossa oração, não nos esquecendo da maravilhosa realidade da “comunhão dos santos” relembrada pelo Papa Francisco na sua Exortação Apostólica “Alegrai-vos e Exultai” (Mt 5,12).
“Os santos, que já chegaram à presença de Deus, mantêm conosco laços de amor e comunhão. Atesta-o o livro do Apocalipse quando fala dos mártires intercessores: ‘Vi debaixo do altar aqueles que tinham sido imolados por causa da Palavra de Deus e do testemunho que tinham dado. Gritaram com voz forte: ‘Senhor santo e verdadeiro, até quando tardarás em fazer justiça, vingando o nosso sangue contra os habitantes da terra?’( 6,9-10). Podemos dizer que “estamos circundados, conduzidos e guiados pelos amigos de Deus. Não devo carregar sozinho o que, na realidade, nunca poderia carregar sozinho. Os numerosos santos de Deus protegem-me, amparam-me e guiam-me” (n.4).
Adotemos – isso não nos fará mal – nestes dias, um santo como nosso intercessor e nosso companheiro, junto ao nosso Anjo da Guarda, junto da Mãe Imaculada e de São José. Procuremos conhecê-lo melhor e invocá-lo com frequência, com a certeza de que com a ajuda dele sairemos vitoriosos da tribulação.
A exemplo dos santos que não deixam de nos proteger, amparar e guiar, procuremos proteger-nos, amparar-nos uns aos outros, para que com a força da fé vençamos a tentação de acreditar que a vida do outro não nos importa; ou então deixar-nos iludir pelas fake news, pelos falsos presságios e receitas mágicas para driblar e lucrar sobre a tribulação.
“Eis o tempo favorável… Eis o dia da salvação” (2Cor 6,2). Por mais difícil que seja para nós reconhecer o momento que vivemos, pode se converter num tempo precioso para aprender novas lições, para crescermos no amor de Deus e do próximo, pois “nos gloriamos também de nossas tribulações, sabendo que a tribulação gera a perseverança, a perseverança leva a uma virtude comprovada, e a virtude comprovada desabrocha em esperança. Ora, a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 3-5).

Dom Milton Kenan Júnior
Bispo de Barretos

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