domingo, 25 de outubro de 2020

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Domitila, a preferida do Imperador

Caro leitor,
A novela global ‘Novo Mundo’, em um recorte de nossa história, entre 1817 e 1822, mostrou Domitila de Castro do Canto e Melo, mais conhecida por ‘Marquesa de Santos’, personagem controversa, vivida pela atriz Agatha Moreira
A personagem foi retratada inúmeras vezes no teatro, cinema e televisão.
D. Pedro, casado desde 1817, com d. Leopoldina, princesa da Áustria, vivia envolvido com amantes, entre bailarinas, modistas e até freiras, não importando se a mulher fosse casada ou não, pois concedia benesses aos seus maridos para acalmá-los. Envolveu-se, ao mesmo tempo, com Domitila e sua irmã Maria Benedita, com quem teve um filho, ambas casadas. Porém, Domitila, era a preferida de D. Pedro e trocavam picantes cartas de amor. O nosso imperador se comportava como um d. Juan. Esse foi o caso mais duradouro e famoso dele, entre 1822/1829. Domitila foi tachada de ‘manipuladora, a mulher que se aproveitou de D. Pedro para enriquecer’, para uns e como ‘santa, matrona, a desviada que virou honesta’, para outros.
Titilia, como era carinhosamente chamada, nasceu em 1797, em São Paulo, de tradicional família paulista, casou-se, em 1813, aos quinze anos, com o Alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, com quem teve três filhos. Felício era um homem violento, segundo seu bisneto José Tobias de Aguiar “a maltratava muito, era um cavalo”, sendo que o mesmo chegou a esfaqueá-la. Após muita demanda, em 1824, foi-lhe concedido o divórcio. D. Pedro de Alcântara, então Príncipe-Regente, a conheceu, em S. Paulo, a 29 de agosto, poucos dias antes do grito do Ipiranga. A partir daí houve uma verdadeira paixão à primeira vista. No ano seguinte o imperador a instalou no Rio de Janeiro, onde foi nomeada, a 4 de abril de 1825, dama camarista da imperatriz d. Leopoldina; a 12 de outubro do mesmo ano recebeu o título nobiliárquico de Viscondessa de Santos; e um ano depois, o de Marquesa de Santos, apesar de não ser natural dessa cidade litorânea. Consta que tal atitude do Imperador se deu para atacar José Bonifácio de Andrada e Silva, nascido em Santos, seu ex-ministro, em exílio na França.
Em 1826, a imperatriz d. Leopoldina morre. D. Pedro passa a procurar uma noiva na Europa, no entanto, o seu relacionamento com Domitila e os sofrimentos causados a Leopoldina, eram vistos com horror e várias princesas europeias recusaram-se a casar com o ‘imperador-galinha’. Em 1829, D. Pedro e Domitila rompem o relacionamento amoroso devido ao seu casamento, em segundas núpcias, com Amélia de Leuchtenberg, numa tentativa de restaurar sua imagem. Em sua convivência de sete anos, Pedro e Domitila tiveram cinco filhos.
Em 1833, a Marquesa de Santos, amancebou-se com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, político e rico fazendeiro sorocabano, cujo casamento oficial ocorreu em Sorocaba, em 1842. Dessa união nasceram seis filhos. Tobias de Aguiar, foi escolhido por duas vezes presidente da Província de São Paulo, portanto, Domitila, foi primeira-dama dos paulistas. Enviuvou em 1857.
Em 1834, ela adquiriu um casarão na antiga Rua do Carmo, atual Roberto Simonsen, em São Paulo, próximo ao pátio do Colégio, construção do Séc. XVIII, com paredes de taipa de pilão e pau-a-pique, onde recebia estudantes do Largo de S. Francisco e a sociedade paulistana com animados bailes de máscaras e saraus literários. Em sua velhice se tornou uma senhora devota e caridosa. Ela viveu no Solar até seu falecimento, aos 69 anos, em 1867. Hoje o imóvel abriga o Museu da Cidade São Paulo.
Domitila foi sepultada no Cemitério da Consolação, ao lado de seu irmão caçula Francisco de Castro, seu filho Felício, de seu primeiro casamento e Maria Isabel de Alcântara Bourbon, a condessa consorte de Iguaçu, de seu relacionamento com D. Pedro. Seu túmulo recebe flores de pessoas que a consideram uma santa popular, afinal, existe uma lenda que ela protege as prostitutas da cidade. O túmulo foi recuperado na década de 1980 pelo famoso sanfoneiro Mário Zan, falecido em 2006, um dos mais famosos devotos de Domitila, tanto que comprou um jazigo em frente ao dela, onde foi enterrado. Atualmente a família do músico faz a manutenção do mesmo. (Fonte: REZUTTI, Paulo. Domitila. Ed. Geração.2013).

José Antonio Merenda
Professor, historiador e presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura

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