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quinta-feira, 02 de novembro de 2017

Artigos

Desafios da terceira idade

A discussão sobre mudanças previdenciárias abre um importante debate necessário sobre o futuro do Brasil. A perspectiva do aumento da longevidade da população requer enfrentar grandes desafios. Se hoje os brasileiros com 65 anos de idade ou mais representam aproximadamente 8% da população, em 2030 a expectativa é de grandes mudanças na pirâmide etária do país, com 14% das pessoas nessa fase da vida.

A gestão da saúde populacional precisa se preparar para essas novas demandas. Aos poucos, os pacientes deixarão de ser diagnosticados com doenças típicas de economias em desenvolvimento – como as enfermidades infecto-parasitárias – e enfrentarão as chamadas Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs) – como diabetes, hipertensão arterial, artrite e problemas cardíacos, entre outras.

O enfrentamento dessa nova realidade exige um novo olhar para a saúde tanto do setor público como também do privado. Nessa área, o diagnóstico da população adulta, com a separação em grupos de risco, é essencial para garantir resultados, que impactam na melhoria da qualidade de vida da população, contribuindo para a redução de custos a longo prazo e ajudando a melhorar os indicadores de saúde. Por isso, a gestão passa a construir um modelo integrado, atendendo às diversas demandas.

As DCNTs e as neoplasias constituem o conhecido “Pareto da Saúde” – são 20% em número, mas são responsáveis por 80% dos gastos em saúde. E ainda, esses indivíduos irão gastar somente no último ano de vida mais da metade dos recursos em saúde que consumiram durante toda a existência. Identificar essas pessoas e oferecer o adequado tratamento desde o diagnóstico vai permitir a esse público alcançar padrões semelhantes daqueles que têm menor risco. Isso vai impactar na melhora dos investimentos com internações, medicamentos, exames, entre outras despesas. O diabetes, por exemplo, atinge mais de 12 milhões de brasileiros, segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo (SBEM). Nos EUA, os custos para o tratamento dessa doença já ultrapassam a soma de US$ 200 bilhões anuais.

O trabalho deve prosseguir identificando pessoas com tendências futuras para as DCNTs como os pacientes obesos, sedentários, tabagistas, usuários de álcool, entre outros. A implantação de programas com orientações de atividades física, nutrição, entre outras medidas, contribui para que essa parcela da população não passe para o grupo de alto risco, aumentando as necessidades de cuidados específicos. As medidas preventivas são essenciais para reverter essa tendência e devem estar no horizonte dos gestores de saúde.

Mesmo no grupo de pessoas saudáveis, o acompanhamento por profissionais contribuiu para a prevenção de eventuais doenças e melhorias na saúde. Essa população pode precisar de programas de nutrição e atividades físicas, por exemplo, como forma de manter padrões saudáveis de vida. Esse conceito resume a Gestão de Saúde Populacional, tendência de gestão da área que conecta diversas ações em saúde a um banco de dados relacional, o qual permite estratificar a população em diferentes grupos de risco e orientar programas voltados as especificidades de cada grupo.  

A força das ferramentas digitais, facilitando o acesso dos indivíduos aos conceitos de autocuidados em saúde e, ao mesmo tempo, facilitando sua conexão às bases de dados, tendem a acelerar como nunca esses conceitos. Sob essa óptica, os medicamentos exercem papel fulcral. A evolução desses produtos é responsável, sem dúvida, por grande percentual na sobrevida que hoje alcançamos. Desde os antibióticos até os mais recentes medicamentos biológicos, mais e mais doenças passaram a ser curáveis ou ainda controláveis em estágios iniciais.Os investimentos em saúde podem ainda apresentar um custo maior na sua implantação, com necessidade de exames diagnósticos, consultas especializadas, entre outras. Mas o capital investido pode ser diluído ao longo dos anos e mostrar resultados positivos, como a redução de internações e uso de recursos de alto custo.Não estamos aqui falando em novos investimentos, mas sim de gestão e interação de programas e recursos já implantados no campo do acesso, mas totalmente desconexos em relação a gestão. O Programa Farmácia Popular, por exemplo, está presente de Norte a Sul do País. Acertadamente, o governo, por meio do programa, promove acesso a medicamentos voltados às DCNTs – particularmente diabetes, hipertensão, hipercolesterolemia – e DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica). O programa, baseado no conceito de PBM (Programa de Benefício de Medicamentos), é totalmente eletrônico e pode permitir ferramenta de gestão poderosa. 

No entanto, a gestão dos acessos – como dados de adesão, escape de tratamento e integração a outras bases de dados assistenciais – ainda precisa ser constituída.  

Com recursos cada vez mais restritos, a gestão em saúde é essencial para o futuro dos brasileiros. Por urgente, o conceito precisa permear a agenda estratégica dos principais “pagadores” de saúde do País: o governo e o setor privado.

 

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