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domingo, 19 de setembro de 2021

Artigos

Crise na saúde: do esclarecimento necessário, dos impactos na Santa Casa e ao interesse da população.

Há 3 anos assumia a Santa Casa de Barretos, por concessão da Prefeitura de Municipal, o Sr. Henrique Prata, somando dois claros objetivos que foram, por um lado, tentar garantir a boa medicina praticada há quase 100 anos pela instituição, mesmo que ela fosse aproveitada ao interesse particular do referido gestor como hospital escola da sua faculdade particular de medicina.
Duas surpresas ao Corpo Clínico do hospital: não ter sido consultado sobre uma manobra regrada por um contrato esdrúxulo, atípico, estranho de prazo de 30 anos para uma chamada “intervenção”. A outra, o pressentimento de que o futuro não garantiria a ninguém, desde profissionais de saúde, nem à população, a sagrada qualidade de atendimento hospitalar, hoje bastante evidente de desqualificação.
Estava aí criado um novo nome ou modelo: Hospital de Amor, no lugar de Hospital de Câncer de Barretos, esse há décadas idealizado com propósito de qualidade técnica e louvável humanismo pelo seu fundador Dr. Paulo Prata, para o cuidado específico do câncer. Estavam agora englobados, para todos os fins, 3 hospitais: 2 de tratamento de câncer e 1 de medicina geral, que é a centenária Santa Casa.
Os choques iniciais dessa mudança com o novo perfil (Sistema de Amor): a crítica levada a público, pelo presidente da Fundação, Sr. Henrique Prata, de que há décadas vinha sendo praticada na Santa Casa (e na cidade) uma medicina desonesta desde o trabalho dos médicos até os gestores que por ali fizeram sacrificadas e honrosas histórias.
Crítica na mídia local, regional, nacional, televisiva e impressa, chegando a usar a tribuna da Câmara Municipal de Barretos para um pronunciamento injusto e inverídico, donde pude fazer uma defesa inicial. Isso está gravado em arquivo público e privado. Atitude irreal, injusta e desagradável a todos, desde agentes de saúde do hospital, atingindo o público que sempre valorizou os médicos e a instituição.
O tempo passou, com quase 4 anos de Sistema de Amor. Com o que deparamos hoje? Uma medicina desqualificada, praticada por profissionais sem a expertise de profissionais experientes e especialistas, expondo o cidadão comum, dono do seu patrimônio (a Santa Casa) e submetido a decisões médico/cirúrgicas flagrantemente muito distantes dos níveis que possuíam no passado, a despeito do avanço técnico e científico da Medicina atual.
O “capricho” de marginalizar médicos com mais de 15 anos de prática e conhecimento, isto é, com 20, com 30, com 40 anos de experiência, desprovendo a estrutura de Preceptores, Mentores e Seniores que são essenciais para as decisões maiores em todas as profissões, quanto mais na Medicina, diante dos pacientes atendidos.
Um verdadeiro monopólio da saúde pública em Barretos, permissivo pela administração da prefeitura, em evidente acerto de apoio político de campanhas eleitorais. Ao povo, restando a sonegação de um sagrado direito que é a boa assistência à saúde. Chama atenção também a estranha permissividade dos órgãos fiscalizadores com dever e obrigação de defender o interesse público maior.
Essa seria a Medicina honesta, vem a pergunta? Em período de pandemia de COVID19, em que Barretos esteve entre os piores patamares de morbi-mortalidade no Estado mais rico de um rico País?
Essa seria a medicina honesta que coloca o paciente humilde e “doador” frente a aprendizes da sagrada Arte da Medicina, sem o devido, merecido e justo direito a uma DECISÃO MÉDICA que seja plena de graduação técnica e científica, ficando alijados das “cabeças brancas e calejadas” garantidoras, em qualquer profissão, de decisão segura?
Em tempos nos quais houve estimados 1 bilhão de reais não utilizados no País, pelo sistema SUS, por notório encolhimento dos procedimentos não pandêmicos, cirúrgicos e de outras doenças (acumulando problemas para o futuro) e, paradoxalmente, “economizando” custeio para os hospitais filantrópicos.
Em tempos nos quais vieram recursos abastados para cuidar do COVID, do erário público para o erário público, não se justificando queixar de falta de dinheiro para a gestão da saúde.
Agora, de súbito, vem o que é muito grave: denúncia de que há desvios de recursos da entidade (Sistema de Amor) por conta de próprios funcionários, cujas explicações precisam ser muito claras. E se há investigação policial na jogada, acarreta muita preocupação com algo que, sendo entidade PRIVADA, tem contornos públicos que exigem rigorosa e refinada fiscalização: o recurso da gestão é, certamente, na totalidade público: seja por dotações governamentais, seja por doações públicas (mesmo que espontâneas), seja por loterias autorizadas.
Mais do que nunca, é fundamental a devida apuração e explicação no maior âmbito público possível.
Situação entristecedora ao cidadão barretense.
Que não se venha justificar agora, que foi a “medicina desonesta do passado”, de médicos nem de gestores, a causa ou a razão da embaraçosa situação.
Se triste, enquanto cidadão barretense, sinto-me com a “alma lavada” por algo que somente o tempo pode muitas vezes mostrar ou demonstrar. Meus colegas médicos podem continuar de cabeça erguida, nunca tendo sido abaixadas pela injustiça, e continuarem fazendo jus ao respeito especial que o mundo inteiro tem nos emprestado em função do combate entrincheirado diante da pandemia.
Em tempo: com o devido rigor, se há um ou outro colega médico envolvido em situações equivocadas, somos claramente a favor de que a punição deverá ser aplicada exemplarmente, conforme é praxe em nossa prática comum e sempre fiscalizada.
Mas, com a certeza de que o tempo, “tardando mas não falhando”, vem reparar injustiças que ali atrás nos foram imputadas.
Por fim, temos visto visitas a Barretos de políticos já visando as eleições estaduais do ano que vem. Passou da hora de Barretos ser “contemplada” com promessas de obras típicas de cidades pequenas e sem a importância de ser centro de região administrativa e com a tradição e pioneirismo nacional da pecuária de corte. Hoje diversificando sua atividade nas indústrias do mesmo setor: usinas, frigoríficos produção de sucos cítricos, comércio crescente e gabaritada prestação de serviços.
É urgente a retomada da Santa Casa de Barretos pela Prefeitura e acerto político para sua transformação em Hospital de Clínicas nos moldes de outras cidades como Ribeirão Preto, Rio Preto, Franca, Bauru, etc. É indisfarçável a postura de oferta de migalhas de benefícios públicos, recentemente, por políticos que “passaram” por Barretos. Pior ainda, o conformismo de nossos políticos locais em aceitar ofertas tipicamente feitas a verdadeiras corruptelas e, ainda, comemorar.
Nossa população merece respeito e qualidade de atendimento, em níveis que a iniciativa privada e os planos de saúde têm oferecido à população. A preferência é a alçada Estadual, longe dos oportunismos políticos e de terceiros que ficam expostos quando a municipalidade administra.
Que a verdade venha à tona nessa estranha e misteriosa história até agora apresentada. Que Deus proteja nosso hospital e a nossa querida cidade.

Dr. Fauze José Daher
Gastro-Cirurgião – Vídeo Endoscopista e Médico do Trabalho
Mestre em Ciências pela UNIFESP (Univ. Federal de São Paulo)
ex Diretor Clínico da
Santa Casa de Barretos
ex Presidente da Assoc.
Paulista de Medicina – Regional de Barretos
Ex Vereador Constituinte
Advogado

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