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sábado, 20 de abril de 2024

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Converter-se à fraternidade

A Igreja do Brasil propõe neste ano, no tempo quaresmal, a Campanha da Fraternidade com o tema: “Fraternidade e Amizade social”. Um tema rico de interpretações, mas, que se considerado com critério e fidelidade, indica o coração do Evangelho: a fraternidade!

A amizade social é um termo querido pelo Papa Francisco. Na sua Carta Encíclica “Frateli Tutti”, ele diversas vezes se serve deste termo para falar da necessidade de recuperarmos no nosso tempo o amor “desejoso de abraçar a todos” (FT n.3);  o “amor que rompe as cadeias que nos isolam e separam, lançando pontes; o amor que nos permite construir uma grande família na qual todos nós podemos nos sentir em casa (…) Amor que sabe de compaixão e dignidade” (FT 62).

Realizar uma campanha que tem como tema “amizade social”, durante o tempo da Quaresma, tempo de penitência e conversão, é propor a todos o esforço para recuperarmos o que há de mais importante no anúncio de Jesus: o chamado à fraternidade.

Não podemos ignorar a crítica mordaz que Jesus faz aos mestres da religião do seu tempo: saduceus e fariseus, mestres da Lei. Jesus previne os discípulos do perigo do fermento dos fariseus (cf. Mc 8,15). Em outras palavras Jesus quer que seus discípulos não se deixem contaminar pelo farisaísmo que corrói a religião, colocando-a a serviço da vaidade.

Para Jesus o farisaísmo é a deturpação da Lei de Deus. É ameaça que não permite às pessoas tornarem-se “adoradores em espírito e verdade” (Jo 4,24). Reduz a religião a um conjunto de normas, preceitos, ritos, costumes, tradições que ilude e engana. Muitas vezes usa uma roupagem atraente e um discurso rígido. O farisaísmo deturpa a fé das pessoas, convencendo-as de que na relação com Deus tem pouca importância a necessidade dos irmãos, e o clamor dos necessitados.

O lema da Campanha da Fraternidade deste ano é um versículo do discurso que Jesus proferiu contra os fariseus e mestres da Lei. Jesus os chama de “hipócritas”! Jesus diz que eles se consideram guias, mestres, pais; quando há um único Mestre que é Ele, o Cristo; e um único pai, o Pai do céu! Assim diz Jesus: “Quanto a vós, não vos façais chamar de rabi, pois um só é o vosso Mestre e todos vós sois irmãos” (Mt 23,8).

Trata-se de uma crítica forte de Jesus ao sistema religioso do seu tempo que prestigiava alguns, distanciava outros, criava privilégios e acirrava as diferenças. É a lógica do farisaísmo que se cobre com o manto da religião.

“Todos vós sois irmãos” é a palavra-chave deste texto. Ela indica que, para vencer a hipocrisia farisaica que acompanha as religiões em todos os tempos, somente a fraternidade é capaz. Somente quando compreendemos que não é possível amar a Deus se nos recusamos a amar os irmãos: “Sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte” (1Jo 3,14).

Nossa conversão quaresmal tem que se manifestar em amizade social, em fraternidade; ao contrário ficará apenas em bons propósitos e boas intenções; ou então se reduzirá a um sentimentalismo barato que não gera autêntico amor a Deus.

Por: Dom Milton Kenan Jr

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