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terça-feira, 30 de novembro de 2021

Artigos

Consciência Negra – Por que 20 de novembro?

Caros leitores,
O dia 20 de novembro marca a morte, em 1695, do herói negro Zumbi, líder do mais famoso quilombo, o dos Palmares. O Quilombo dos Palmares era formado por negros foragidos, localizado na Serra da Barriga, na Capitânia de Pernambuco, atual região de União dos Palmares, em Alagoas. A data é uma expressa homenagem da comunidade afro a Zumbi, símbolo da resistência e luta pela liberdade, cujo legado continua vivo em seu povo. Em 1995, após exatos 300 anos de sua morte, a data foi oficializada como o ‘Dia da Consciência Negra’.
No entanto, o dia 13 de maio de 1888, foi uma data importantíssima e deveria ser cultuada por toda a comunidade negra. Nesse dia foi assinada a Lei Áurea, pela Princesa Isabel, Regente do Império, com apoio dos abolicionistas e deputados, colocando fim a uma estrutura escravocrata, que há mais de três séculos subjugava o ser humano, que na diáspora negra fora arrancado da mãe África. O Brasil foi o último país a abolir essa prática desumana e vergonhosa. A abolição foi recebida com euforia pelos negros e a sociedade. A Princesa Isabel foi aclamada ‘A Redentora’.
Porém, o sonho se transformou em pesadelo. Havia um projeto para indenização dos proprietários de escravos e medidas importantes, tanto social, quanto educacional para os recém-libertos, no entanto, não saiu do papel. Com isso a aristocracia rural se voltou contra a monarquia, sendo um dos motivos de sua queda. Quanto aos negros, a força motriz nos ciclos econômicos e na riqueza do Brasil, agora livres, ficaram sem rumo.
Para onde ir? Onde morar? Como socializar-se? Como arranjar emprego? Muitos permaneceram nas fazendas, que agora, também, utilizavam a mão-de-obra dos imigrantes europeus, outros se aventuraram pelas cidades numa saga, acusados de vadiagem, famintos, recebendo míseros tostões em subempregos, aglomerados em cortiços e favelas insalubres, sem perspectivas de ascensão social, uma verdadeira mazela. Eram uns ‘pés-rapados’, como diziam. Via-se a riqueza da elite branca e a miséria dos negros. Os cultos de matriz africana eram sufocados e seus praticantes perseguidos pela polícia.
E escolas? Nem pensar! Thomas Jefferson, presidente dos Estados Unidos, já no início do século XIX, dizia: “a liberdade exige um povo com certo grau de instrução”. No Brasil, o analfabetismo beirava a 100%. O atraso se generalizou, com reflexos na sociedade até hoje. Segundo, José Murilo de Carvalho, no livro ‘Cidadania no Brasil – O Longo Caminho’: “Foram pouquíssimas as vozes que insistiram na necessidade em assistir os libertos, dando-lhes educação e emprego”.
Se durante a escravidão eram comuns anúncios, como estes, publicados no jornal ‘A Província de São Paulo’: “Negrinha: Compra-se uma de 12 annos para fora […] ” ou “Excellente Escravo – Vende-se um creollo de 22 annos, sem vício e muito fiel […] é o melhor trabalhador da raça […], humilde e bonita figura […]”(sic), como se comercializassem um animal. Após a abolição, o preconceito e o racismo estrutural não se desfizeram. Passado o tempo, ainda se ouve certas frases racistas, como: ‘Vem pra casa menino, senão o negão vai te pegar!’, ou aquela, que muitos julgam como elogio ‘Este é um negro de alma branca’, ou, ainda, na composição ‘O teu cabelo não nega’, de Lamartine Babo, de 1931, “O teu cabelo não nega/ Mulata /Porque és mulata na cor/ mas como a cor não pega/ Mulata/ Mulata quero o teu amor/ […]” e vai por aí afora.
O racismo é uma ferida profunda. Há muitas histórias escondidas. É comum perseguições a negros, principalmente, no comércio, com olhares de desconfiança. Além de ameaçados, diariamente, pela polícia ou com injurias raciais, em estádios esportivos e nas redes sociais, entre outros locais.
Hoje, os afrodescendentes mostram a força da união. Ocupam as universidades, administram empresas, são médicos, advogados, professores, e a profissão que quiserem, além de sobressaírem nos esportes, na música e outras manifestações artísticas, deixando os estereótipos para trás.
Muito ainda há o que se fazer, mas o olhar deve ser positivo.
Vidas negras importam!

José Antonio Merenda
Historiador e membro da ABC – Academia Barretense de Cultura – Cadeira nº 29

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