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sábado, 20 de julho de 2024

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Com Tomé, compreendemos melhor a natureza da Fé

Tomé, também chamado “Dídimo” (= gêmeo), não estava quando Jesus ressuscitado apareceu aos discípulos naquele mesmo lugar em que garantira que não os deixaria órfãos, que voltaria (Jo 14,18), para dar-lhes a sua paz (Jo 14,27) e a sua alegria (Jo 16,20.22).

Tomé não estava e sucumbe à tentação de não acreditar no testemunho dos seus irmãos. Quer ver Jesus com seus próprios olhos, tocá-lo com suas próprias mãos. Ele terá essa oportunidade, não, porém, sem a participação da “comunidade” e “na” comunidade. A fé é pessoal, mas não individual. A fé é sempre pessoal e comunitária. Por isso, Jesus censura Tomé por não ter acreditado no testemunho dos outros e elogia os que haverão de crer sem ver.

A insistência de Tomé em “ver”, “tocar”, “colocar” os dedos nas chagas tem a função de mostrar a identidade entre o Ressuscitado e o Crucificado. O Ressuscitado não é um outro. O Ressuscitado é o mesmo Crucificado. A Ressurreição tem como ponto de partida o Morto na cruz e não um qualquer cuja vida não desembocou na Cruz. O Ressuscitado é como o fruto da semente que, caindo na terra, morreu. Sem a Cruz, não há ressurreição; sem Ressurreição, a cruz seria o mais trágico fracasso.

Além de dúvidas sobre o Ressuscitado, Tomé exclui o valor do testemunho. A evangelização cristã que se apoia sobre o testemunho, experimenta seu segundo fracasso. O primeiro foi o de Maria Madalena: “os apóstolos acharam que eram tolices o que as mulheres contavam e não acreditaram nelas” (Lc 24,11). O segundo é esse, dos apóstolos em relação a Tomé, que não crê na palavra dos irmãos (Jo 20,25). A questão é séria, pois não aceitar o testemunho dos outros destrói toda relação e toda possibilidade de transmissão de conhecimento. Sem confiança razoável na palavra de outro, adeus humanidade, adeus comunidade, adeus Igreja!

Por outro lado, para nós, foi um bem essa ausência de Tomé. A sua ausência dá-nos a possibilidade de compreender melhor a natureza da fé. Os primeiros discípulos tiveram a graça de ver Jesus em sua condição histórica e em sua condição gloriosa, ressuscitada. Essa graça é única, irrepetível, transferível sob alguns aspectos, intransferível sob outros. Mas a fé não está presa nem àquela experiência dos discípulos (os que pregaram Jesus na cruz também o viram e o tocaram, mas não creram) nem à nossa situação atual (quem não vê não necessariamente crê). A fé consiste em ver o invisível, em tocar o atingível, em compreender o incompreensível, pelo dom do Espírito Santo. O “olho” do Espírito é que permite ler como sinal da Glória aquilo que os olhos da carne veem como objetos e fatos da história. A fé um ver e um tocar interiores. Sob este aspecto – que é a essência da fé – nós e os discípulos históricos de Jesus estamos num terreno comum.

(Revista O Pão Nosso de cada dia, n. 223)

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