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quinta-feira, 03 de julho de 2014

Artigos

Clima emocional da Seleção não justifica despreparo físico e técnico

É evidente existir um descompasso emocional na Seleção Brasileira. Porém, isso não pode ser usado para distorcer outra realidade: a falta de planejamento e de preparo e a existência de dificuldade técnicas e físicas no elenco. Ademais, parece que a comissão técnica perdeu o controle sobre a equipe e demonstra nervosismo. O que chama atenção também é que os jogadores, nas entrevistas à mídia, contestam haver problemas psicológicos. Ora, negar o óbvio é um sintoma evidente de conflito. Algo acontece nos meandros do grupo.
São vários os fatores que afetam o aspecto emocional dos atletas. Seria muito simplista considerar apenas o fato de estarem jogando em casa, embora isso possa ter um peso pequeno. O espírito de “guerra”, termo usado em entrevistas pelo treinador Luis Felipe Scolari, reflete o ambiente da Seleção: um clima tenso, em que os jogadores vão para uma batalha e não para um jogo de futebol. Essa pressão é muito maior do que jogar em casa. Haja vista que cantar o Hino Nacional à capela é bonito, emociona, mas efusivamente pode significar agressividade e nervosismo. A torcida brasileira, nesse aspecto, parece reforçar as emoções mais afloradas.
O choro, genericamente, pode prejudicar ou não. Depende qual o motivo e com quais motivações se chora. As lágrimas podem ser um sinal tanto de responsabilidade excessiva e extravasamento ou de fraqueza emocional e desequilíbrio. Aquela velha máxima sempre vale para situações assim: “Chorar faz bem, mas em excesso é prejudicial”. Nesse sentido, todo o clima emotivo, criado naquele momento difícil contra o Chile poderia até unir mais o time e lhe dar força, mas é pouco provável que tenha sido isso o que ocorreu. Embora o time tenha vencido nos pênaltis, o preço pago pelos jogadores para se chegar a essa conquista foi muito alto.
Além disso, ficou visível o descontrole de alguns jogadores, principalmente do capitão Thiago Silva, que permaneceu sentado na bola, chorando copiosamente, ignorando os pênaltis. O que se esperava dele pelo posto que ocupa? Liderança, força e confiança, o que não aconteceu. O choro de Neymar ao final do jogo, ajoelhado e em prantos, também chamou a atenção. E, por fim, o goleiro Júlio Cesar chora por causa de uma culpa enorme que assume, e que não é dele, por conta do Brasil ter sido desclassificado pela Holanda na última Copa do Mundo. O time já havia demonstrado instabilidade emocional em outras partidas antes de enfrentar o Chile e demonstra sofrimento ao jogar.
Nesse contexto, a psicóloga da Seleção Brasileira, Regina Brandão, pode conversar em particular com alguns jogadores, principalmente aqueles que demonstram mais instabilidade emocional, e buscar integrar o grupo, fazendo com que outros atletas, mais seguros, tenham maior aproximação com aqueles que estão mais vulneráveis. Deve, ainda, conversar com a comissão técnica no sentido de buscar clarificar pontos a serem trabalhados com o grupo. Os problemas e dificuldades precisam ser expostos e tudo deve ser falado objetivamente. A esta altura do campeonato, nada pode ser omitido.
 
Breno Rosostolato é psicólogo e professor da Faculdade Santa Marcelina – FASM.

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