segunda-feira, 30 de novembro de 2020

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Casa de Vó

Esta crônica mais poética, fiz em homenagem a todas as avós do passado, presente e futuro, pois não tem como referir-se a elas sem poesia.

Sou do tempo em que casa de vó era um lugar encantado, onde moravam lindas fadas madrinhas grisalhas, vestindo belos vestidos de chita. Casa com cheiro de bolo, cheiro de flor, cheiro de café coado, de pão saindo do forno, de joelho ralado, cheiro de amor.
Tempo bom era aquele, onde o relógio não era inimigo e trabalhava sem pressa, nos trazendo a beleza de cada minuto. A alegria era coisa fácil, vinha de um cafuné, de uma colherada de doce de leite roubado antes do almoço, de uma prosa, de uma xícara de café, mas não qualquer café, o de vó era diferente, tinha gosto de mimo, não sei explicar, tinha mais sabor.
O tempo foi passando e as fadas madrinhas do lugar encantado foram partindo para seus verdadeiros castelos, que ficam em um lugar bem longe, denominado de céu, deixando muitas saudades, ensinamentos e boas lembranças, que jamais se apagarão, mas antes de irem embora foram treinando substitutas, para seus valiosos cargos, que apesar de difíceis, tinham sabor de mel.
As noviças foram chegando meio tímidas, com medo de errar, começaram a perder os cabelos grisalhos, que agora se tornavam louros, negros, castanhos e até vermelhos, podendo variar de tempos em tempos, bastava desejar. Os vestidos de chita também deram lugar a jeans, tênis, trajes diferentes para dia e para noite, trabalho ou lazer. Essas novas fadas madrinhas já não passavam tanto tempo assim no castelo encantado, pois tinham variadas tarefas, e muito o que fazer.
A receita daquele bolo antigo teve que ser adaptada para uma versão de micro-ondas, bem mais prática, o café já não era mais coado no coador de pano, e o fast food começou a ser uma opção para os dias corridos, mas nem por isso casa de vó deixou de ser um lugar encantado, o amor que era o maior de todos os ingredientes continuava intocado.
A casa da vó moderna pode não ter quitutes saindo do forno a toda hora, mas não há neto que saia sem comer um doce, sem um colo, sem um carinho. Há até mesmo os que moram nela, por um motivo ou por outro, e não a trocariam por nada, nem mesmo mudariam uma porta, uma janela.
As aprendizes de fadas madrinhas atualmente, às vezes têm até que fazer papel de mãe, coisa que raramente acontecia no passado, e demostram muita bravura quando precisam realizar tal tarefa, provando que além de encantadas, são fortes, guerreiras e iluminadas.
Com atenção, busco os aprendizados e experiências do presente e do passado para que possa preparar bem minha casa, com todos seus cheiros, mimos, quitutes, estórias, e ter um orgulho danado, de que também a chamem um dia de “Casa De Vó”.
Erika Borges

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