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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Artigos

Bicentenário da Independência

Caros leitores,
No dia 22 de agosto último chegava a Brasília, para uma estadia de quinze dias, o coração do Imperador D. Pedro I do Brasil e Rei D. Pedro IV de Portugal, para as celebrações do Bicentenário da Independência de nosso país. A relíquia está conservada em formol há 187 anos, e ficará exposta no Palácio do Itamaraty, para visitação pública. O coração é guardado à sete chaves, na Igreja da Lapa, na cidade do Porto, em Portugal, conforme desejo do próprio D. Pedro, em seu leito de morte, em 1834, no Palácio de Queluz. Quando das celebrações do Sesquicentenário da Independência, em 1972, o corpo de D. Pedro fora transladado, definitivamente, de Portugal ao Brasil, e descansa em paz na Cripta do Monumento do Ipiranga, junto às suas esposas Leopoldina e Amélia de Leuchtenberg.
D. Pedro I fora um estadista, sem dúvida, e uma pessoa com todas suas virtudes e defeitos. Ele possuía, como nós, os mesmos sentimentos: amor, ódio, caridade, raiva, felicidade, alegria, tristeza e tantos outros inerentes à natureza humana. E uma pergunta: o nosso personagem era mais brasileiro ou português? Afinal, ele viera de Portugal ainda menino, aos 9 anos, junto com sua família, que fugira da ação napoleônica na Europa.
Se olharmos para o lado emotivo, logo imaginamos o coração a bater forte no peito de nosso D. Pedro, que ficou dividido em vários momentos de nossa história, como, a 9 de janeiro de 1822, chamado ‘Dia do Fico’, quando exigia-se seu retorno às terras lusas e o povo fazia abaixo-assinado para que ele permanecesse no Brasil. Sentiu-se acuado, travou-se uma luta entre o coração e a razão. Por fim, decidiu-se: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, diga ao povo que fico”; a 7 de abril de 1831, em meio a uma crise política, outro acontecimento colocou o nosso Imperador na berlinda, quando Portugal exigia que ele assumisse o trono, desde a morte de D. João VI, em 1826. Não obstante, seu irmão Miguel havia usurpado o poder, o qual por direito seria de sua filha Maria da Glória. Mais uma vez o coração de D. Pedro dividia-se entre Brasil e Portugal. No entanto, novamente a razão falou mais alto, e ele partiu para Portugal, abdicando ao trono brasileiro em favor de seu filho Pedro de Alcântara, de apenas cinco anos.
No entanto, entre a decisão de ficar e partir foram nove anos de intervalo. Em 1822, havia um movimento pró-emancipação política. A 7 de setembro, às margens do riacho do Ipiranga, o destino cruzou o caminho de Pedro, então Príncipe Regente. Em situação de desconforto e nenhuma galhardia, em cenário diverso daquele retratado na pintura de Pedro Américo. O cavalo não era alazão, era uma besta, animal sem nenhum charme, porém forte e confiável, naquela época de caminhos íngremes, enlameados e esburacados da Serra do Mar, entre Santos e São Paulo. Foi, portanto, como um simples tropeiro, coberto pela lama e pela poeira do caminho, além de estar com uma tremenda dor de barriga, devido a um desarranjo intestinal contraído na viagem.
Nesse interim, ao parar para descansar e dar de beber aos animais, um mensageiro enviado pela Princesa Leopoldina, direto do Rio de Janeiro, trouxe-lhe péssimas notícias, ao colocar Pedro a par das pressões exercida por Portugal, de enviar tropas e tirando-lhe o poder de Príncipe Regente. Sem dúvida, seu coração bateu forte no peito. Contudo, mais uma vez a razão falaria mais alto. Evocou, então, o conselho de seu velho pai, D. João VI: “Se o Brasil vier a se separar de Portugal, põe a coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro lance mão dela”. E, às 16h30, num rompante, ergueu a espada e proclamou o famoso ‘Grito do Ipiranga – Independência ou Morte”.
Apesar desse fato histórico, a luta pela independência tinha um longo caminho a ser percorrido, pois havia rivalidades entre as províncias, beirando uma guerra civil, que poderia fragmentar o território, a exemplo da colonização espanhola na América. Felizmente isso não ocorreu e hoje somos uma só Nação.
Amanhã, 8 de setembro, o coração de D. Pedro I retorna à cidade do Porto, em Portugal, para o repouso eterno.

 

José Antonio Merenda
Escritor, historiador e membro
da ABC – Academia Barretense de
Cultura – Cadeira nº 29

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